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O Paradoxo da Maioria

Eu já há algum tempo observo a maneira como as pessoas se comportam, como elas falam e quais suas expectativas. Um dos pontos que mais me intrigam, até agora, é a maneira como as pessoas lidam com o conceito de “maioria”, em especial quando ligado à maioria de opinião.

Isso me levou ao conceito que gosto de chamar de “Paradoxo da Maioria”. Eis a definição: o Paradoxo da Maioria é a situação em que a adesão ou rejeição de um indivíduo ao conceito de “maioria” tem relação unicamente com sua adesão ou rejeição ao comportamento da maioria observada, e essa adesão ou rejeição ao conceito de “maioria” existe separadamente de qualquer outra adesão ou rejeição de comportamento de maioria que possa vir a ser observado, pois essa adesão ou rejeição do conceito de “maioria” é meramente instrumental.

Trocando em miúdos, o Paradoxo da Maioria se refere à situação em que as pessoas gostam de falar que são maioria quando acham que é legal falar que é maioria, e adoram criticar maiorias quando não gostam do que é maioria, e as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo, porque as pessoas usam isso apenas quando é conveniente.

Note que eu não relacionei o contexto necessariamente à adesão ou rejeição de um conceito de “grupo”, nem à adesão ou rejeição do conceito (em qualquer aplicação) de “minoria”. Em muitos casos, tanto “grupo” como “minoria” podem ser usados de modo complementar a esse, mas o paradoxo existe independentemente deles.

Um uso frequente, como tantos outros tipos de comportamento hipócrita e/ou contraditório, é a política. Creio que todos podemos pensar em exemplos em que a maioria que levou à vitória de um candidato foi execrada pelos que o rejeitavam, mas esses mesmos indivíduos comemoraram e apontaram como valoroso o voto maioritário quando se tratava de um candidato que aprovavam.

Na política e em outros universos similares, a identificação do Paradoxo é fácil ao observarmos a utilização de termos como “ovelhas”, “massa de manobra” e termos similares, que designam o momento de rejeição da maioria, ignorando a adesão de maioria de outros momentos, que será prontamente utilizada como ponto qualificador de qualquer argumento, quando isso for relevante.

Do mesmo modo, é possível observar quando o comportamento de conformidade é desejado pelo indivíduo que faz a análise — “a maioria está correta e/ou se manifestou de tal forma, e a minoria deve obedecê-la” -, ou indesejado — “a maioria está incorreta e/ou é burra, e apenas uma minoria privilegiada percebe a verdade e resiste a ela” -, ajustando seu comportamento posterior de acordo.

Pode-se pensar que existe um meio-termo, alguns cenários específicos em que a maioria é positiva e outros em que ela é negativa, mas apontar que existem variações nos motivos por trás da utilização de conceitos de “maioria” é relevante somente até certo ponto, ou apenas no isolamento de certos tópicos, o que é efetivamente insustentável como prática que possa ser considerada honesta, já que nada existe de maneira isolada na sociedade.

Essa utilização em qualquer compartimentalização efetivamente será sujeita a subjetividade, e quando mais inconsequente for a noção de maioria para qualquer atividade ética e/ou moral, maior a incapacidade de atribuição ou remoção de valor de maioria.

O resultado invariável, assim, caso não se supere a visão simplória de “maioria” versus “minoria”, é a hipocrisia. Cada indivíduo passa a ser uma combinação de pertencimento, aprovações e reprovações cruzadas, existindo ignorando o fator analítico básico que deveria estruturá-las. Teremos uma pessoa, por exemplo, que aprecia o fato de ter um gosto musical de minoria e rejeita a maioria como ignorante, que aprecia o fato de fazer parte de uma maioria política e rejeita a minoria como ignorante, que aspira ser como uma minoria intelectual enquanto rejeita a maioria a que pertence nesse sentido.

No fim das contas, pode-se atribuir o desejo de rejeição ou adesão à “maioria” dentro de dois aspectos simples: controle e ordem. A rejeição (“a maioria é burra”) surge quando entende-se que o que é majoritário naquele momento é fora da ordem esperada, e a crítica e desejo de mudança é um desejo de controle daquele aspecto. Igualmente, a adesão (“a maioria está certa”) é a confirmação do que se entende com ordem esperada e desejo de conservação. O paradoxo, assim, não é notado pelos que o perpetram, porque eles focam efetivamente no cenário, e não no meio como tentam tornar o cenário real. É a ideia que lhes é mais interessante, não o meio.

Duvida? A melhor maneira de entender o Paradoxo da Maioria é entrar em uma discussão sobre democracia. Interessantemente, esse desprezo pela “maioria” surge mesmo dos supostos devotos protetores da democracia como o bem maior de uma sociedade civilizada, desde que eles estejam suficientemente insatisfeitos. Os maiores amantes da democracia, no geral, são aqueles que se beneficiaram dela naquele momento.

Existe alguma “cura” para isso? Talvez não para o desejo de ordem e de controle, mas existe uma cura para o Paradoxo. É a mesma cura que existe para todo e qualquer tipo de hipocrisia: não repetí-la. O melhor passo para uma sociedade se tornar menos hipócrita é se tornar menos hipócrita, fazendo e falando menos hipocrisias.

Nesse sentido, entende-se que é mais honesto — além de efetivamente mais inteligente — evitar toda e qualquer utilização de “maioria” como definidor de indicação de qualidade ou falta de qualidade. A utilização efetivamente honesta é da “maioria” apenas como o que ela realmente é: maior quantidade dentro de uma amostragem. Nada mais do que isso.

Um indivíduo que se considere honesto e consistente não poderá manter a visão eterna de que a maioria sempre está certa ou errada, com risco de se contradizer em outros aspectos. Não só isso, ele se torna mais livre, pois permite-se (idealmente) a análise de fatos, características e comportamentos de modo mais independente.

É só parar de julgar a maioria, positiva ou negativamente por ser (ou não ser) maioria. Se “o seu lado” ganhou uma eleição, comemore a vantagem numérica. Se perdeu, se entristeça e reclame que não teve a vantagem numérica. Mas nunca, nunca classifique a maioria puramente por ela ser a maioria. Caso contrário, você irá efetivamente assumir o compromisso de admitir uma superioridade indevida a quem discorda, ou a própria inferioridade indevida, dependendo de como considere as maiorias.

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É proibido

Você sabia que pode tentar proibir uma ideia, mas não pode me impedir de pensá-la?

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A corrupção é a nossa sombra

Em meio ao cenário político caótico que nos encontramos, repetidamente surgem os questionamentos sobre motivações e sobre manifestações políticas, geralmente como o velho “Ninguém vai fazer nada sobre isso?” ou “Ninguém vai pra rua?”. O silêncio e a passividade geram questionamentos repetidos e ineficazes, mais como maneiras de apontar hipocrisias do que de efetivamente gerar mudança.

Ficamos assistindo alguma decisão absurda e prevendo manifestações que não acontecem, ou que, se acontecem, um grupo ou outro olha para os que se manifestam com olhares de julgamento e a certeza de que a causa que eles defendem é problemática, quando não simplesmente errada, factual e/ou moralmente falando.

“Não é sobre a corrupção, nunca foi”, dizem alguns, explicando as reais motivações das manifestações. Seria tudo sobre outros objetivos que teriam relação com conquistar objetivos políticos específicos a qualquer custo.

Eu discordo. Ou ainda, concordo em parte.

Eu acredito que, excetuando-se os políticos de dentro dessa equação — mais algumas pequenas legiões financiadas e influenciadas diretamente por eles — a maior parte das pessoas realmente quer o fim da corrupção. É verdade. Eles o querem sinceramente e verdadeiramente. Ainda que por vezes a definição de corrupção possa variar, eles querem.

O problema maior é que a corrupção é uma sombra. Ela é algo que sempre está lá, que pode até mudar de forma, mas que nunca irá sumir. É algo que conseguimos ignorar com facilidade, e algo que pensamos que todo mundo tem.

A corrupção é sombra no sentido que estamos tão acostumados com ela que passou a ser um pressuposto. Ela não é mais um fato, mas uma condição ou meio.

Acima de tudo, a corrupção não é sólida. Não conseguimos pegar na corrupção, apertá-la pelo pescoço, jogá-la na cadeia. Mas conseguimos apontá-la, entendê-la e, no geral, indicar onde é que está, quando visível. É por isso que é fácil “lutar” contra ela, mesmo sem fazer nada prático. É fácil se posicionar “contra a corrupção”, efetivamente sem demonstrar qualquer ação para fazer algo em relação a ela. Falar “sou contra a corrupção” é como falar “eu tenho uma sombra”. É verdade, mas não muda nada.

Quando partimos dessa mentalidade, acredito que fique mais fácil compreender o que acontece. Afinal, se todos são contra a corrupção, como é que ela persiste? Como é que que estamos tendo esta discussão?

Minha hipótese é a visão de uma recompensa. Ou a falta dela.

Explico: as grandes mudanças políticas dos últimos tempos sempre tiveram alvos muito específicos. Elas tiveram uma trama clara, com seus personagens e motivações. Tinham lados, coalizões, mocinhos e bandidos, ainda que cada um desses varie de acordo com alinhamento político.

Nós podemos sempre falar que o que fizemos ou fazemos é contra a corrupção, mas sabe-se muito bem que escolhemos algum tipo de corrupção quando vamos às ruas, quando fazemos um vídeo engraçadinho para compartilhar no Facebook ou WhatsApp, quando damos atenção a um comentarista político. Nós sabemos sobre quem é que são os fatos que estão sendo apresentados e quem estamos omitindo quando estamos apresentando os fatos. Nós temos alvos, métodos e visões de mundo. Nós temos alinhamentos políticos. Nós temos objetivos.

Em um cenário em que a corrupção não tem partido específico, ela deixa de ser o peso principal e são esses outros aspectos que importam mais. A água está no calcanhar de todos, e se vamos chutar na direção do adversário, sabemos que também vamos nos molhar, então nós começamos a olhar para o que consegue flutuar acima da água.

Não existe a manifestação “pura” contra a corrupção, por mais que ela seja um muro. E não faria sentido existir, mesmo. Não faria sentido — ainda que dê vontade — bradarmos ao céu contra a existência da corrupção como um todo e esperarmos que isso nos ajude e nos salve do mal, amém. A corrupção é feita de partes, e se tentamos atirar em todas ao mesmo tempo, não atingimos nenhuma delas em cheio. Nós sabemos disso, mesmo quando fingimos que não.

O que fazemos, então? Nós nos manifestamos quando podemos ver uma recompensa em agir em algum dos elementos da corrupção. Não estou falando em ganhar dinheiro — ainda que certamente tenha muita gente ganhando dinheiro às custas de revolta política — estou falando em ter um objetivo que reúna força motriz. E essa é a vantagem e o perigo, porque é quando deixamos de olhar para a sombra, para a água que está chegando ao umbigo.

Observe que todas as grandes manifestações políticas recentes tiveram objetivos muito claros: elas eram contra alguém, a favor de alguém, por um grupo específico, contra um grupo específico, a favor de um grupo específico, contra uma decisão específica, a favor de uma decisão específica ou uma combinação desses elementos. A recompensa era a remoção dos elementos indesejados e adição dos desejados. A corrupção é um pano de fundo, mas esses são os motivos.

Quando não existe a manifestação, invariavelmente há dois motivos possíveis: ou o público possível de adesão a essa manifestação não enxerga uma recompensa imediata e mensurável, ou há uma recompensa maior por não se manifestar.

O que torna tudo mais complicado, aqui, é que uma recompensa pode ser facilmente composta de conceitos subjetivos como o sentimento de adesão ou não a um grupo e/ou ideologia ou mesmo que “o outro lado” não “ganhe”. Muitas vezes, o orgulho de ver o outro lado perder é uma recompensa maior do que qualquer prejuízo garantido pela passividade frente a uma alteração social. É algo puramente emocional.

Apoiar o político que não se gosta, mas cujo plano é bom, se torna assim algo ruim porque ele é um “inimigo”. Apoiar o político de que se gosta, mas cujo plano é ruim, se torna assim algo bom porque ele é um “aliado”. A justificativa da corrupção pode surgir a qualquer hora igualmente para os dois, mas ela pesará muito mais para quem você discorda, mesmo que o que ele apoia iria efetivamente te ajudar.

Em um cenário político, o envolvimento emocional é tão grande que muitas vezes consideramos um objetivo maior levar um tiro na cabeça de um aliado do que arriscar que o inimigo tome a arma e atire em qualquer outro lugar — inclusive no problema.

Os políticos sabem muito bem disso. Seus apoiadores, também. Por isso eles sempre desenvolverão as recompensas de acordo com o que é mais interessante para eles, seja incentivar a queda de uma figura política, a aprovação de um projeto, ou a passividade contra qualquer ação corrupta, colocando como recompensa a paz, tranquilidade e estabilidade supostamente decorrentes da inação.

Por isso, lembre-se sempre que é conveniente fingirmos que “é tudo a mesma coisa” e “não tem jeito” e “vamos fazer o que?”, e falar“esses corruptos”, mas não dar nomes aos bois. Quando homogeneizamos a corrupção, lentamente derrubamos recompensas e aumentamos a sombra, tornando tudo mais distante e impalpável. Quando homogeneizamos a corrupção, nós não fazemos nada além de defender quem tem poder para cometer atos de corrupção.

Assim, entenda que uma manifestação que não faz sentido para você simplesmente não atende a uma recompensa que você enxerga ou considera válida.

Dentro dessa lógica, não estranhe quando não existir uma manifestação — simplesmente não existem pessoas enxergando recompensa o suficiente em fazer alguma coisa, ou simplesmente existem pessoas enxergando recompensa maior em não fazer nada. Aquele que se posiciona “contra a corrupção” mas mantém seu silêncio e inação, por mais que diga o contrário, efetivamente está em uma dessas categorias.

Se você enxerga a recompensa, torne-a visível. Organize as pessoas que enxergarem a recompensa. Mas lembre-se sempre: se um político ou qualquer lado de uma briga organizou uma recompensa para você, é bem provável que a recompensa seja muito mais emocional do que factual.

Que punição você se daria?

Você já parou para pensar em como seria se você cometesse um crime? Eu já. Já vi filmes de ação e suspense o suficiente para imaginar como executar um crime e nas maneiras de fugir ou de ocultar provas, ainda que não pretenda realizar qualquer crime. É uma linha de raciocínio emocionante e um exercício mental inegavelmente divertido.

Te faço outra pergunta: se você cometesse um crime, que punição você se daria?

Essa é uma que nós não fazemos com frequência o suficiente, ou talvez nunca o façamos: se você cometesse um crime, que punição você acha que seria justa para você? Como você classificaria seu crime? Você utilizaria absolutos ou preferiria uma análise das nuances do próprio crime?

Uma resposta que pode surgir como reflexo é a simples recusa a responder — afinal, para que se preocupar com isso, se você não vai cometer um crime? Você não é um criminoso e não será. Mas eu peço que faça o exercício. Na ocasião de uma punição por algum crime, que punições você receberia?

Invariavelmente, o pensamento que se segue não é isento de alguma emocionalidade. A ideia de que podemos perder dinheiro ou liberdade como punição do crime — e convenhamos que dinheiro e liberdade estão diretamente relacionados — é algo que mexe com instintos básicos de sobrevivência. Podemos nos julgar racionais, mas nessa hora nossos sentimentos invariavelmente entram em jogo.

Pode ser, também nesse momento, que até mesmo as punições previstas em constituição soem excessivas. Você tem uma vida, tem uma família para sustentar. Trinta anos de cadeia por homicídio soa excessivo. Dez anos por roubo acabaria com seus planos. Cinco anos por furto qualificado é demais para você.

Você, nesse momento, pode achar que as leis estão erradas, ou que não consideram tudo que você é e todos seus lados bons. Mesmo que julgamentos possam amenizar a pena, o fato de que ela existe ainda é um grande problema para você. Nesse momento, considerar que a punição é justa não é impossível. Mas é algo bem difícil de lidar.

Enquanto fazemos esse exercício talvez sua mente racional tenha levantado um ponto: é por isso que a lei existe de maneira externa a nós, e por isso que ela é flexível. A lei é necessária para a ordem, apesar de nossos sentimentos. Dura lex, sed lex até mesmo quando o “dura” nos afeta, certo?
Certo.

Agora, e se quem cometeu o furto que eu mencionei acima fosse outra pessoa? A resposta imediata, especialmente depois desse momento de razão, é que o criminoso seja punido de acordo com a lei, certo?

Bom, não é o que vemos com frequência.

Na hora que vamos julgar o outro, o mesmo sentimento que nos deixou míopes para nos julgarmos também toma conta. Toda a flexibilidade que achamos que merecíamos, todo o julgamento brando que desejávamos passa a ser descartável. Até as leis podem parecer fáceis demais, brandas, e os absolutos passam a imperar frente a qualquer relativização. Quanto mais nos importamos com o crime, ou com as vítimas, ou quanto mais desprezamos quem o perpetrou, mais severo é o nosso julgamento.

Qual é a punição que você daria para alguém que furtou? Um a cinco anos? Mais? Quando começamos a fazer essas perguntas que vemos que a sentença de morte começa de baixo, sem precisar de muito. Para algumas pessoas, mais do que a punição prevista na lei, a amputação da mão do ladrão é válida. Para outros até sua morte.

Você se daria a mesma punição que a que você deu ao ladrão?

“Não sou ladrão, então não importa”, diz sua consciência, ou quem sabe você, talvez até em voz alta. Tudo bem, vamos para outro exemplo.

Sabia que eu já violei a lei algumas vezes? Verdade. Estou aqui falando, mas é fato que já levei multas de trânsito. Já andei com o carro fora do rodízio e certa vez passei um pouco acima da velocidade em uma lombada eletrônica.

Qual punição você se daria por excesso de velocidade? E por parar em fila dupla, ou em um local proibido? E por furar um sinal vermelho?

Não escolhi multas de trânsito como exemplo à toa. Além de ser o crime provavelmente mais comum da população — exceto talvez por jogar lixo, ainda que esse raramente seja motivo de punição — este já deu o que falar, com inúmeras pessoas falando sobre a famosa “indústria da multa”, geralmente criticando os métodos em que multas são aplicados e bem pouco do mérito ou falta de mérito de quem reclamou da multa.

Você pode achar que é injusto que existam muitas multas, especialmente as que te afetam. Talvez você até passe os pontos de sua carteira para outra pessoa, puramente para que não tenha o trabalho de refazê-la, se a perder. Talvez você continue rodando por aí com uma carteira vencida. Acontece. Como você sente que isso é injusto, vai culpar “os corruptos”, a “indústria da multa” e vai continuar a correr naquela avenida, afinal “aqui não tem radar, então não levo multa”.

Mas quando você vê aquele carro te fechar, ou cruzar um semáforo vermelho, ou fazer uma conversão proibida e isso te afeta, você quer que ele seja punido. Talvez ele tenha feito qualquer uma dessas coisas porque “não tinha radar.” Mas subitamente elas são mais crime do que para eram para você. E agora?

Não precisa responder, pois o ponto desta conversa não é sobre multas, mas sobre punições.

Poderíamos falar sobre o “gato” para roubar TV à cabo e o roubo aos cofres públicos dos políticos, mas vamos direto a um ponto maior: se você matasse alguém, que punição você se daria?

Pense em todos os motivos. Poderia ser um crime passional, ou um crime de ódio, poderia ser por lucro ou poderia ser um momento de loucura. O que você faria nessas situações? Como você escolheria sua punição?

Eu tenho um palpite: você nunca escolheria pena de morte para você mesmo.

Talvez você tenha pensado que só mataria em legítima defesa, e isso justificaria uma punição mais branda, mas é certo que a maioria das pessoas não desejaria a pena de morte em nenhum dos outros casos, nem que cometessem o pior dos massacres.

Não precisamos ir muito longe para ver que o oposto não é real. Não precisamos ver as sugestões de morte de todo tipo para criminosos de todo tipo, elas estão em nosso imaginário e em prática em vários países.

Quando alguém questiona ou efetivamente fala contra alguma punição desse tipo, porém, a acusação que vem é que a pessoa está “defendendo bandidos”. “Diretos Humanos”, nesse momento, surgem como um tipo de escudo à criminalidade, e seus defensores se tornam a escória, como se fosse deles a responsabilidade pela continuidade da criminalidade. Nesse momento, surgem os bordões como “leva pra casa”, criados por perpetradores de pensamentos rasos e repetidos por multidões com as mesmas características.

(Inclusive, talvez você tenha pensado em me dizer isso enquanto lia esse texto e talvez tenha se sentido ofendido(a) com minha suposição sobre seu nível de raciocínio. Não peço desculpas, mas peço paciência para ler até o final, já que ele não está muito longe. Se você efetivamente diz não agir com base em seus sentimentos e instintos, usará sua razão para ler e, se assim desejar, argumentar contra mim.)

Quando você fala de um crime e questiona a punição que o criminoso sofreu, ou o tratamento que ele passou até que a punição fosse exercida, nunca foi sobre ele. Nunca foi sobre “o que eles merecem”, mas sim “o que eu mereceria, se fosse eu?”

Os direitos humanos não protegem os bandidos. Eles protegem os humanos. O erro na crítica aos direitos humanos nesse contexto é a insistência de que o crime remove o estado de cidadania ou humanidade de um indivíduo. Um criminoso é tão humano quanto você, por mais que cometa um crime contra a humanidade. Um criminoso é tão humano quanto você, por mais que você não queira ou pense que ele não mereça.

Atacar a manutenção dos direitos humanos é facilitar que a qualquer momento possa ser a nossa própria cidadania ou humanidade que é colocada em cheque, e ela não estará protegida, pois até então não era protegida a daqueles que estavam a um ato de distância de nós.

A partir do momento em que você aceita leis para serem obedecidas, deve entender que elas são válidas a todos. A exceção não pode existir, caso contrário não existem leis. Se a exceção é proteger quem tem mais dinheiro, as leis punem quem não tem. Se a exceção é proteger quem tem poder, as leis punem quem não tem.

O “cidadão de bem” só é “de bem” por conta de circunstâncias que podem ser facilmente mudadas, ou simplesmente porque não faz questão de que a punição que lhe é devida seja efetivamente executada.

Você pode dizer que nunca cometerá qualquer crime, e talvez não cometa, mesmo. Mas já pensou o que aconteceria se transformassem algo que você faz hoje em crime?

Nesse caso, que punição você se daria?

“Ele é honesto!”

(Texto originalmente compartilhado no Medium)

Ouvi dizer por aí que na política são poucos que são honestos. Ouvi dizer que o mesmo se aplica para todas as áreas da vida.

Ouvi dizer que na hora de votar, tem que se escolher aquele que não tem nenhum crime, nenhuma investigação, aquele que não tem nada de errado. É essa a definição de ser “honesto”: não ter crime, nem suspeita de crime.

Isso é engraçado, não é? Pois a honestidade, assim, vira um efeito passivo, não ativo. As pessoas viram “honestas” por não serem “desonestas”.

Mas vamos voltar às coisas que eu ouvi dizer.

Nessas horas em que definem-se os honestos como os que não tem crime ou suspeita de crime, sempre surgem os heróis. Aqueles lá, que são “honestos” em meio a um mundo de sujeira. E eles são colocados como heróis puramente por esse fato. Não porque fizeram algo, mas porque não fizeram um crime.

Eu achava que não fazer um crime era o mínimo necessário, que era um pressuposto. Eu achava que mesmo em um cenário completamente ruim, isso deveria se manter. Mas oras, aparentemente nem todo mundo pensa como eu. Acontece.

Os honestos viram “heróis”, “mitos” e são elevados como a “salvação” da cidade, estado ou país, ou de algum aspecto específico deles.

Mas eu ouvi dizer também que quando se tem um herói desses, qualquer suspeita que surge sobre ele é uma tentativa da mídia de macular sua imagem com mentiras ou manipulação, toda acusação é intriga da oposição querendo difamá-lo, que quem questiona ou aponta suas contradições é ignorante ou odioso e, é claro, que a palavra do próprio herói sobre ele mesmo vale mais que qualquer acusação.

Ouvi dizer que gostar de um herói desses é como fazer parte de um clube ou um tipo de jogo, em que a reputação dele é o ponto mais importante. Ouvi dizer que esse jogo é uma partida que acontece contra todo mundo que se opõe a ele e até contra pessoas que nem sabem que ele existe. Ou até contra todo mundo, mesmo.

Ouvi dizer que o rival do político — pois ouvi dizer que agora os políticos tem “rivais”, e esses “rivais” existem mesmo fora de eleições e mesmo em cargos que nem se influenciam — for suspeito de alguma coisa, a suspeita já é confirmação de crime, mesmo que seja do mesmo crime de que a consciência de quem ama o herói o inocentou.

Ouvi dizer, também, que não é sobre as coisas que o candidato diz ou fez. Que não é sobre a maneira como ele briga com os outros, ou como fala coisas que já criticaram seus seguidores por dizerem. Também não é por sua visão de política, nem de economia — essas, aliás, nem são tão importantes, me disseram. O que importa é que seja “honesto”. Se ele é “honesto”, ele nem precisa saber das outras coisas, já que essa é a carta na manga, porque os concorrentes são todos “desonestos”.

Acima de tudo, ouvi dizer que o herói é o cara que tem que agradar os sentimentos de quem o escolhe. Tem que alimentar não a razão, mas a emoção que inspira cada uma das coisas que as pessoas falam. Por isso que o herói fala com tanta emoção, porque quando estão na pior, é isso que as pessoas querem. Ninguém quer pensar quando está na pior, só quer voltar a se sentir bem, não importa de qual maneira, então tudo se justifica para isso. Ouvi dizer que é isso que as pessoas dizem — que querem ver o que os outros fariam em uma situação emocional sem a proteção das ideias do herói.

Ouvi dizer, ainda, que os que são efetivamente “honestos” como o herói mas não falam como ele fala, ou não fazem parte dos grupos que ele faz parte, ou não tem as exatas mesmas ideias, não servem. Nessas horas, ser “honesto” não basta, aparentemente. Ainda que, para os heróis, dizem ser tudo que é necessário, o que talvez torne as pessoas que dizem isso desonestas.

Ouvi dizer, também, que o herói é sempre herói, mesmo que seu partido ou qualquer grupo de que faça parte, ou qualquer causa que defenda, ou qualquer plano que realize se mostre desonesto. Isso porque o herói é “honesto”, e certamente há sempre uma explicação para mantê-lo assim.

Ouvi dizer que tem gente que acha tudo isso certo e verdadeiro e se diz inteligente e racional. E “honesta”.

Eles vão ver só

Eu nunca encontrei alguém que estivesse plenamente satisfeito com o mundo. Eu nunca estive plenamente satisfeito com o mundo, e imagino que nunca estarei. Junto disso, às vezes nós ficamos tão insatisfeitos com o que julgamos que seja um absurdo acontecendo ao nosso redor, que isso nos gera uma revolta.

Quem nunca sonhou com um mundo que visse tudo como enxergamos, julgando que nossa solução — para tudo, ou ao menos para algum aspecto — fosse a fórmula mágica que faltava para resolver tudo? Quem nunca viu as hipocrisias e ignorâncias do mundo e pensou como seria se elas fossem diferentes?

Só que nem sempre nossas pretensões viram realidade, tanto por serem alterações além de nosso poder, quanto por não podermos fazer — ao menos não com um passe de mágica — que todos concordem com nossa visão. Nossas expectativas para o mundo se tornam frustrações, e nossa revolta não necessariamente some.

E sempre há o “outro”. Seja a outra ideia, o opositor à nossa, o semelhante que não age como seria conveniente a nós que ele agisse ou, no fim das contas, a realidade que não corresponde à nossa visão. Todos eles são agentes do absurdo que vemos no mundo, de um jeito ou de outro, e muitos de nós tentam educá-los e combatê-los para, através deles, mudar o absurdo do mundo. Mas essas lutas também podem ser infrutíferas — ou, ao menos, nos parecerem infrutíferas.

Nessas horas, quando vemos algo absurdo acontecendo e nos sentimentos os únicos iluminados — ou, quem sabe, parte de uma minoria iluminada — mas não há nada que possamos fazer, é quando surge uma vontade venenosa: nós estamos tão certos de que o outro lado está errado, que entendemos que o único caminho para eles é a ruína. Ou eles se arruinarão, ou seus apoiadores se arruinarão, ou eles arruinarão as circunstâncias ou práticas e métodos ou as ideias ou até o próprio tecido da realidade, de tão cheias de ruína que são suas ideias.

“Eles vão ver só”, nós pensamos, olhando para baixo do topo da torre intocável de nossa certeza para as ruínas imaginárias que, sabemos muito bem, invariavelmente surgirão como fruto das ações de que discordamos. É claro que nós seremos intocados pela desgraça certa ou, se não formos intocados, ao menos a desgraça sempre será menor (ainda que terrível) do que a satisfação de, no meio da lama, podermos apontar o dedo na cara daqueles de quem discordamos e anunciarmos “eu te disse!”

Isso não é um pensamento incomum. O impulso de estar certo é algo básico à maioria de nós, especialmente quando o assunto de que tratamos envolve muita emoção, como é o caso de política. Por isso mesmo, é sempre muito tentador seguir com esse comportamento.

A recompensa é sempre grande: no caso de desgraça, podemos falar que estávamos certos, que os outros estavam errados, nos convencer que nossa intromissão ignorada no assunto era a fórmula do sucesso não reconhecida e, no meio de todo o processo, ainda podemos nos isentar completamente de qualquer responsabilidade pelo que aconteceu! Fantástico, não?

Se a desgraça prevista não se cumprir, nós não declaramos derrota. Ah, não, certamente que não — nós encontraremos ainda os pontos de discordância, pois mesmo que desse certo, não foi o que queríamos, e o que queríamos invariavelmente seria superior à realidade. A incapacidade de alcance de uma expectativa de sucesso que nós definirmos se torna a prova cabal de nossa certeza, e certamente poderemos apontar algo para falar “viu, eu não disse? Agora eles estão vendo!”

Não importa o cenário, se nos convencemos que “eles vão ver só”, para nós, eles sempre “vão ver”, até quando nós “perdemos”. Nós nos damos a licença moral de, ao não termos culpa de nada, podermos nos afastar ideologicamente para sempre garantir nossa superioridade moral.

Só que isso é um problema não só pela isenção óbvia de nossas ações, mas pelo fato de que se o mundo fez uma decisão por pensar diferente, é bem provável que a lição que o mundo aprenda — se é que vai aprender alguma — também vai seguir em uma lógica diferente da nossa.

Veja, as pessoas podem nem mesmo identificar a falha em seus planos. Ele pode ser a única maneira que tinham de fazer algo. Ou pode ser que elas realmente “vejam só” alguma coisa, mas ainda não será o nosso “ver só”. Se virem, elas vão conseguir uma justificativa própria para isso, do mesmo jeito que nós conseguimos uma justificativa para as nossas próprias ideias e percepções.

Especialmente se os outros já conhecem a nossa visão e têm uma resposta emocional a ela, elas continuarão na lógica delas — e nós na nossa. Se o outro tiver se convencido de que está tudo bem, contra qualquer evidência do contrário, ele acreditará que tudo está bem. O mesmo, claro, ocorre com o oposto — não há realidade alguma que sobreviva a um pessimista, do mesmo modo que não há otimismo que não amenize qualquer desgraça.

Assim, por mais que dê vontade, às vezes, de entregar o mundo à própria destruição, ao que é ilógico e absurdo e que efetivamente nos levará como um todo ao apocalipse, apenas para que possamos dizer com certeza que tudo aconteceu porque fomos ignorados, pense que é só quem pensa de um jeito que poderá lutar por aquele jeito, porque quem não enxerga a lama não enxergará mesmo que esteja nadando nela de braçada. E se você se ausentar de fazer algo pelo que concorda, tem uma pessoa a menos lutando por aquele jeito.

Torcer contra ou se ausentar, no fim das contas, prejudica a todos e a você, e cada um vai achar uma explicação própria para o problema, e achar erro nas soluções, e achar soluções nos erros.

O pensamento do “eles vão ver só” tem três erros muito básicos: o primeiro é a suposição que “eles” vão ver o que está acontecendo da mesma maneira que você. O segundo é a suposição de que eles sempre vão entender os problemas do resultado como fruto das próprias ações. O terceiro é supor que “eles” existem separadamente de nós e que a ruína nunca vai nos afetar.

Esse pensamento simultaneamente superestima as capacidades de percepção e raciocínio do outro e subestima a capacidade de abstração e de orgulho, ao mesmo tempo que, ignorantemente, nos diz que eles são extremamente diferentes de nós e orgulhosamente que nós estamos necessariamente sempre certos.

A lição básica é esta: eles não são diferentes de nós. Eles somos nós. Eles podem pensar diferente de nós, ter aparência diferente ou outros hábitos, mas eles também têm orgulho de suas convicções, eles também têm limitações e é claro que eles também querem estar certos.

Se você acha que eles são inalcançáveis e que tudo que fazem levará todos à ruína, saiba que é provável que pensem o mesmo de você, com a exceção de que, se você parou, nada garante que o outro lado parou também. E é nesse momento que o orgulho mais paralisa — e é nesse momento que aqueles que tem algum poder de mudança vão correr atrás dos próprios interesses, podendo ser apoiados por quem está fazendo alguma coisa, e é nessa hora que o que você previa no “eles vão ver só” ataca, e não são só “eles” que vão ver.

Lembre-se: oposição de ideias sempre vai existir, dos assuntos mais simples aos mais complexos. E nisso, quanto mais sem cara é seu inimigo, quanto mais “massa de manobra” e quanto mais “inimigo”, maior a chance de que você seja igualzinho a ele. Nenhuma “massa de manobra” acha que é “massa de manobra”, mesmo quando é manobrada em direção a outra massa que pensa que é muito diferente.

E lembre-se que a destruição que a ignorância/imoralidade/má-vontade/etc. do outro lado promover também é sempre sua.

Caldo de Peixe (ou “Ninguém Dúvida do que é Padrão”)

(Texto originalmente publicado no Medium)

Recentemente, eu realizei um sonho: fiz uma viagem ao Japão. Na companhia de pessoas queridas, visitei a Terra do Sol Nascente, onde tivemos todo tipo de experiência interessantes e interagimos diretamente com uma cultura distante de nós em maneiras bem maiores do que a viagem de cerca de 24 horas de duração (sem contar o tempo entre escalas) e as 12 horas de diferença de fuso horário.

Eu poderia escrever inúmeras histórias e falar longamente sobre minhas experiências naquele país, onde aprendi muito sobre muitas coisas, inclusive sobre mim mesmo e sobre os outros. Eventualmente, espero realmente falar longamente e contar essas histórias. Mas agora quero falar sobre caldo de peixe.

Na verdade, quero falar sobre comportamento humano, mas acontece que caldo de peixe é uma ótima maneira de falar sobre comportamento humano.

É justo começar esse relato com a informação de que não me alimento com carnes. E sim, isso inclui também peixe. Do grupo de cinco viajantes, eu não era o único adepto do vegetarianismo — Mariana Rolin, amiga minha de longa data, tem uma dianteira de uns bons anos nessa frente, com toda a experiência que isso traz. Quando partimos na viagem, nós estávamos preparados para tomar todo tipo de precaução, mas nada poderia ter nos preparado para o Japão.

Japoneses gostam muito de peixes. Sendo um país insular, é natural que a pesca fosse historicamente uma atividade básica do povo japonês e, junto disso, o consumo de peixe. Somando a isso o histórico de guerras — e a carga de privações que elas trazem -, eles também têm a característica de tantos outros povos de aproveitar tudo que podem como matéria-prima e desperdiçarem muito pouco.

Desse modo, japoneses são extremamente adeptos da alimentação com caldo de peixe. Ou, como logo aprendemos em japonês, em nome de nossa sobrevivência, “dashi”. Boa parte da culinária tradicional japonesa leva peixe ou algum fruto do mar, mas quando não leva, é quase certo que levará dashi. Para nossa surpresa, até mesmo o aparentemente seguro omeletinho servido em basicamente todas as casas de sushi do país levava dashi.

Quando não havia dashi, havia “katsuo” (“bonito”, um parente do atum geralmente servido ressecado e em pedaços e chamado de “katsuobushi”). Quando não havia dashi ou katsuo, havia caldo de galinha ou de carne bovina ou até mesmo de ostra. As misturas surgem de maneiras alternadamente óbvias e discretas, mas sempre de modos que impossibilitam a alimentação de um vegetariano, já que muitas vezes fazem parte de caldos e da massa dos alimentos de modo que não há a opção de “pedir para tirar”. Conseguir tomar lámen vegetariano requereu paciência, peregrinações pelas ruas de Kyoto e filas nos dois restaurantes em que nos aventuramos.

Percebemos que estávamos em um campo minado quando nem mesmo as compras em supermercado eram seguras: uma alternativa alimentar que já foi integrada ao dia-a-dia do japonês é o curry. O empréstimo da Índia, imaginamos, certamente teria todo tipo de garantia e facilidade, dado o vegetarianismo do país. Mas bastava ler os ingredientes atrás dos rótulos para entender que era a minoria dos produtos que não levava algum produto de origem animal em sua mistura. O padrão dos caldos (aqui, de carne ou frango) havia contaminado até mesmo o curry.

No meio da viagem, enquanto tentávamos garantir a paciência dos carnívoros do grupo e não depender dos mesmos pratos repetidamente — quem pensa que vegetarianos só comem comida saudável nunca teve que sobreviver à base de carboidratos e fritura por pura falta de opção -, Mari me apresentou uma ideia que foi e continua sendo extremamente útil para meu entendimento da humanidade.

Seus anos de experiência com vegetarianismo já a haviam deixado acostumada a certa versatilidade, especialmente morando na Irlanda, onde frequentemente recorre a “opções” vegetarianas nos restaurantes que frequenta.

As aspas ficam pelo sarcasmo que ela deixa explícito a cada menção desse termo, especialmente porque geralmente a “opção” vegetariana é um único prato sem carnes em um cardápio inteiro. “Se eu só tenho uma opção, não é uma opção,” reforçou ela na primeira vez que falou a respeito disso. O Japão havia invariavelmente levantado esse assunto, com todas essas questões, mas até mesmo para ela era uma experiência inédita não encontrar opção (ou “opção”) alguma em uma rua repleta de restaurantes. Em um momento de frustração, ela desabafou: “Poderiam só não colocar dashi em tudo?”

A resposta que infelizmente tivemos foi a seguinte: eles poderiam, mas não poderiam.

Claro, a culinária japonesa é rica o suficiente em ingredientes e técnicas para criações fantásticas para vegetarianos, mas acontece que eles não precisam pensar nisso, então eles não pensam nisso. O dashi é tão básico na culinária deles que ele se torna o óbvio, padrão. E ninguém duvida do óbvio. Ninguém duvida do padrão.

Mesmo na mais cosmopolita das cidades japonesas, vegetarianismo é um conceito que pode ser considerado alienígena para muitos. Quando questionamos a esse respeito, recebemos a resposta vaga que japoneses não ligam muito para vegetarianismo porque “culturalmente são acostumados a não deixar sobrar nada no prato“, o que é uma resposta que não faz sentido algum, se você considerar que é possível não ter o peixe (ou qualquer outro bicho) no prato, para começar.

Nossa hipótese era que, como tantas outras coisas que as pessoas não pensam, eles simplesmente não pensaram nisso porque não precisaram pensar nisso. Faz muito mais sentido, para mim, se observarmos que a maior parte dos locais que tinham variedade de comida vegetariana eram de origem ou foco estrangeiro, como alguns restaurantes indianos que chegamos a visitar.

Saindo brevemente da presença e da ausência de carnes, o episódio deixou uma lição muito mais clara: o padrão é perigoso porque ele é invisível. O padrão nos deixa fazendo coisas que nem percebemos que fazemos, nos deixa fazendo coisas que nem sempre são necessárias, simplesmente porque nós nos acostumamos a fazer. Você já pensou nos hábitos que tem? Quantas rebarbas e exageros — ou falhas e ausências — você tem que podem simplesmente serem padrões que você se acostumou?

Me lembro de um episódio inócuo, mas que me foi extremamente forte: se você conviver comigo, como com qualquer outro ser humano, você irá observar que tenho vários hábitos e peculiaridades específicas. Uma delas é um hábito que começou como uma piada, mas que passou a fazer parte do meu repertório de interações: por vezes, depois de confirmar uma informação com uma pessoa, eu sorrio, aponto os indicadores com os polegares para o alto, como se fossem armas, e piscando um dos olhos estalo a língua contra os dentes. Soa ridículo, e realmente é um pouco, mas as pessoas levam como brincadeira, já que o hábito só surge em momentos de brincadeira.

Me lembro de uma ocasião em que uma amiga do trabalho foi me imitar e repetiu o gesto. Eu me surpreendi com aquilo, pois não lembrava de nunca ter feito essa brincadeira com ela. Quando questionei, ela respondeu, surpresa: “Rodrigo, você sempre faz isso.” Outras pessoas confirmaram. Eu sempre fazia aquela brincadeira com eles, e estava tão automatizado que não me lembrava de nunca tê-lo feito naquele ambiente.

Imagine que outros hábitos eu não devo ter agregado à minha vida em tantas outras áreas? Imagine quanto caldo de peixe metafórico não existe nos omeletes metafóricos da minha vida?

Voltando ao presente, pouco dias depois da minha viagem ao Japão, já no Brasil, me deparei com outra situação absurda na Páscoa: vi inúmeros amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos discutindo longamente na vida real e na Internet seus planos de comer peixe em vez de carne na Sexta-Feira Santa. As conversas eram movimentadas, muitas com certo desespero e outras com uma empáfia única.

Vendo aquilo, pensei algo que muitos vegetarianos certamente já pensaram no decorrer da história: mesmo para quem come carne habitualmente isso nunca era uma preocupação em nenhum outro momento. Pense bem — comendo ou não carne, sempre existem opções hors concours, como uma boa e velha macarronada com molho de tomate.

 Mas não — o padrão de Páscoa é outro: ninguém está pensando em “não comer carne”, mas sim em “como é que eu vou substituir a carne que eu poderia comer hoje?” Encontrou o erro? O hábito é tão incutido, e ao mesmo tempo invisível, que ele cria um novo processo e até uma nova demanda. Se a carne não fosse proibida, pode ser que o prato do dia tivesse sido a tal macarronada e ninguém teria sentido falta. Sem falar que, para muita gente, o hábito chegou a evoluir para outro patamar — não basta não comer carne e ter que comer peixe, o peixe deve ser bacalhau. Engraçado, não?

Proponho um exercício. Ele é difícil, especialmente por algo de que não pensamos, mas pegue algo que está automático — a maneira que você fala, ou como dirige, ou como escreve — e disseque esse gesto. Passe dias prestando atenção nele. Encontre os erros, as sobras e até os pontos positivos. É surpreendente, eu garanto.

Ah, e se tiver um restaurante, ofereça opções vegetarianas. Chega de dashi e de carnes escondidas. Obrigado.