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A Morte da Lutadora Inexistente (ou “A Anatomia de uma Notícia Falsa”)

Recentemente, vi um amigo compartilhar uma notícia que me chamou a atenção. Era a história trágica de uma lutadora de UFC que, em uma luta, havia morrido após sofrer um traumatismo craniano por conta de um golpe. O foco da matéria era o fato de que a outra lutadora, que teria desferido o golpe, era transgênero, com o texto indicando que, por isso, ela teria uma vantagem física que a favoreceria na lua. A notícia, logo descobri, era sequência de uma outra, de uma semana antes, que falava sobre a ocasião do traumatismo.

Vários elementos no compartilhamento no Facebook me chamaram atenção, e após uma verificação rápida de alguns elementos da matéria, cheguei a uma conclusão: era uma notícia falsa.

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Extremismo não existe

Gostou do título? Eu gostei muito dele. Eu gosto desse título porque ele é QUASE o que as pessoas hoje chamam de “clickbait”, uma “isca de cliques”. Mas não é. Esse título é literalmente o resumo deste texto inteiro, a lição que eu quero que as pessoas tirem dele quando terminarem. Ou antes de terminarem, ainda que prefiro que leiam tudo.

Mas eu entendo porque é que alguém poderia pensar que este texto é uma isca, e isso é porque a ideia de que extremismo não existe parece ridícula, ou parece, dependendo do ângulo que você levar isso, até mesmo muito extremista, ao ponto de gerar resistência em quem a lê.

Talvez você já esteja pescando o caminho que eu quero seguir com essa ideia, porque esse segundo parágrafo teve uma isca de ideia, ainda que não de clique, e essa ideia é que “extremismo” é uma coisa complicadíssima de se entender.

Vamos do começo: “extremismo” é uma palavra, então de certo modo ele existe. Do mesmo jeito que “cogumelo”, “plástico” e “franciscano” são palavras e existem. Só que a diferença é que “cogumelo”, “plástico” e “franciscano” equivalem a coisas e características específicas que nós podemos apontar, enquanto extremismo” é algo que nós só podemos apontar se, ao apontar, nos tivermos com que comparar. Em outras palavras: não existe uma coisa só que nós podemos falar que é “extremismo”, sem necessariamente falarmos, direta ou indiretamente, o que não é “extremismo”.

Você sabe que plástico é plástico por conta própria. Você sabe o que é metal. Você consegue diferenciar um do outro independentemente do outro. Você não diz “ah, este metal não é plástico”, do mesmo jeito que não o compara a carne, tecido ou oxigênio.

Trace uma linha. Ou imagine uma linha. Uma linha reta, de preferência, e com começo e fim. Essa linha terá, necessariamente, dois pontos, um onde ela começou e um onde ela terminou. Agora marque um ponto no centro da linha. Os dois pontos onde a reta começa e termina são, naturalmente, seus extremos. Eles são extremos da própria linha e em relação ao ponto médio.

Agora, se a linha fosse infinita, onde ficaria o meio? Isso é uma pergunta retórica, porque a resposta é: não haveria ponto médio. Também não haveria extremo algum. Mas se eu fizesse um recorte da linha infinita, eu naturalmente criei os dois extremos e posso naturalmente indicar o meio.

Ou seja: extremismo”, assim, nada mais é que a análise de um ponto qualquer de um espectro em relação a outro, dependendo de uma definição de limites específica para determinação desse espectro, que também pode ser tão artificial quanto a própria ideia do extremismo.

Mas é claro que ninguém usa esse termo à toa. Se alguém está apontando um “extremismo”, é exatamente porque se tem um motivo muito forte para isso. Isso acontece porque extremismo” é o termo perfeito que as pessoas usam para que pareçam moderadas e aquilo que não acreditam possa ser considerado um exagero, algo pouco razoável.

Se alguém fala que algo é extremista, normalmente elas implicitamente apontam o que é aceitável (o moderado, que é onde elas estão) e direta ou indiretamente criam uma gradação de aceitabilidade do ponto que estão até o ponto em que está o extremismo ou os extremismos. A vantagem de se fazer isso é que, ao iniciar qualquer conversa com essa nomenclatura, você configura todo o assunto para obedecer a essa regra. Ou seja, você faz quem não concorda com você ter que se defender como se fosse o extremo e você fosse o ponto médio, o razoável.

Existem até algumas vezes em que não existe o ponto médio. Algumas pessoas adoram jogar fora o ponto do meio da linha, mas manter toda a lógica implícita no resto. Desse modo, existe o “ponto razoável” e o “ponto extremista“. Nesse sentido, qualquer coisa que não é o que é ideal para o moderado é sempre um pouco mais extremista, até que seja extremista demais.

Isso ocasionalmente acontece por um outro ângulo, em casos mais estranhos, que é quando a pessoa se define por vontade própria como extremista. A lógica é bem parecida, aqui: a pessoa está dizendo que, dentro daquele comportamento específico, há pessoas que podem ser consideradas mais razoáveis em algum sentido. Implicitamente, também, ela pode estar deixando de reconhecer qualquer pessoa que venha depois dela como participante do espectro em questão, deixando mesmo de reconhecer sua existência, talvez por desejar que a ignorassem, ou simplesmente por desconhecimento. Quem sabe, se soubesse, a pessoa em questão se veria apontando a outra pessoa como extremista acima de seu extremo. Vai saber.

Enfim, vamos colocar isso em termos mais práticos. Eu pensei em falar de política, mas eu conheço vocês e sei que isso vai virar uma bagunça. Eu sei que todos os exemplos que eu poderia usar são politizáveis, incluindo, no caso, o que eu vou usar, mas este é excelente, então seguirei com ele: alimentação.

O que é um extremista, no âmbito de alimentação? Para isso, temos que ter um ponto de partida. O que é um moderado, no âmbito de alimentação?

Considerando o ponto de vista do ser humano médio na cultura ocidental, trata-se de um onívoro. Um indivíduo que come tudo naquela bela pirâmide de alimentos que nós vimos na escola, quando éramos crianças. Ele come de tudo um pouco, e com moderação.

(Fonte da imagem: https://www.todamateria.com.br/piramide-alimentar/ )

O que é um extremista, nesse contexto?

Essa é outra armadilha argumentativa, na verdade, para mostrar como o buraco de qualquer discussão de extremismo é sempre mais embaixo: eu defini dois critérios claros dentro do que é um moderado, e há ao menos um terceiro escondido.

O primeiro critério é o de quantidade. Se o moderado é o que come “de tudo um pouco”, extremistas seriam aqueles que não comem algum ou alguns tipos de alimentos da pirâmide e/ou comem mais de outros, como carnívoros incontroláveis de um lado e veganos de outros (com vegetarianos existindo no meio termo entre onívoros e veganos).

O segundo critério é de tipos de alimentos. E nesse ponto mora uma armadilha dentro da armadilha, porque já começamos supondo que o meio da linha é a pessoa que come tudo. Se a pessoa come “tudo”, o extremista é quem come “não tudo”. Ou seja, qualquer coisa a menos é extremista. É o típico caso de quem jogou fora o ponto do meio da linha.

E nós ainda podemos considerar o terceiro critério que foi o tendenciamento criado pela apresentação da pirâmide, pois ela ditou antes de tudo o que exatamente é aceitável como alimento. Se consideramos o que está na pirâmide como o ponto do meio, alguém que adicionar outros tipos de alimento, ou que ampliar algum dos grupos, pode ser considerado um extremista. Ou seja, nesse ângulo, por um lado temos o extremista como a pessoa que só vai comer um tipo de item de cada um da pirâmide, e do outro lado, o que vai não apenas comer todo tipo, mas adicionar também carne de cachorro, cavalo e, se quisermos ser especialmente exagerados no nosso exemplo, carne humana.

Ou seja, nós já chegamos ao ponto em que mesmo supondo uma alimentação onívora, é difícil definir com precisão o que é um extremista. E se mudarmos o ponto de vista? E se considerarmos um vegetariano como o ponto médio da escala?

Se um vegetariano se considerar como o meio da escala, um onívoro pode ser um extremo e um vegano, o outro. Ou ainda, ele pode considerar extremista quem é majoritariamente carnívoro e colocar o onívoro como um meio termo até lá. Do mesmo modo, ele pode tentar diferenciar o veganismo, considerando uma linha focada em alimentação e outra focada em fatores a mais, incluindo consumo consciente como um todo (roupas e cosméticos veganos, por exemplo). Assim, poderia colocar o “vegano alimentar” (sim, eu tenho consciência de que estou inventando uma nomenclatura), como um meio-termo entre o “vegano completo” e o vegetariano.

Imagine só como seria a visão de um vegano se chamando de moderado. Interessante, não?

Então já determinamos que é difícil delimitar extremismo, certo? Que ele existe unicamente na cabeça de quem o aponta e de quem concorda com esse que aponta. Agora, lembre-se também que muitas vezes não é apenas uma linha que está em jogo. Se você adicionar mais uma linha cruzando a primeira, com outro aspecto, você cria uma gama ainda maior de extremismos. Normalmente, inclusive, é isso que acontece, como no famoso diagrama de coordenadas políticas, e obviamente, mesmo com mais detalhes, tendenciamentos e problemas são inevitáveis.

Por isso, se você ver alguém falando de extremismo, entenda que a pessoa fala isso de um universo de entendimento específico. A discordância que existir com ela, geralmente, é de pessoas que tem outro universo de entendimento. E assim, chegamos ao que é possivelmente o ponto mais importante dessa conversa toda:

Tudo isso, no fim das contas, todos esses pensamentos e nomenclaturas, toda a “moderação” e “extremismo”, serve unicamente como uma densa cortina de fumaça que nos faz esquecer que o extremista não necessariamente é ruim e o moderado não necessariamente é bom.

Esse é o principal truque da conversa inteira. Afinal, por que raios é útil para um suposto “moderado” se identificar assim, declaramente ou não? Porque entendemos, culturalmente, que moderação é bom, simplesmente porque é aceitável e porque é “normal”. 

Eu já falei, mas sinto que é preciso repetir: nós fomos treinados a acreditar que moderação é algo moral, respeitável e responsável, porque o “extremista” sempre puxa a ideia de “exagero”, e qualquer momento em que algo parecer exagerado, parece errado. O “certo” nunca parece exagerado, mas o “errado” não precisa de muito.

“Até água em exagero pode matar”, dirão alguns. “O remédio e o veneno dependem unicamente da dose”, dirão outros, concordando. Mas nenhum desses jamais dirá isso sobre valores que concordem, sobre o respeito que merecem e sobre a segurança que querem sentir. Já imaginou? “Nossa, estou me sentindo tão seguro! É melhor eu não me sentir tão seguro, se não vou ficar confortável demais. Acho que vou procurar uma rua perigosa para adicionar um pouco de insegurança em minha vida.”

Não existe moralidade implícita generalizável. Não é possível afirmar que o extremismo é sempre ruim e a moderação sempre é boa, exceto se você só forçar cenários em que as opções de configurem assim. E a vida prática nunca é assim.

Criticar o extremismo como um exagero é uma armadilha. Se você cair nessa armadilha, é o caminho certo para estar achando que pode ficar no meio do caminho, no ponto moderado, mesmo entre questões indiscutíveis. E se você está falando “não existem questões indiscutíveis”, analise o que você nunca faria ou aceitaria em seu código moral, e veja o quanto você negociaria dessa mesma lógica.

Já imaginou qual é o “ponto moderado” entre “muito genocídio” e “nenhum genocídio”? Já imaginou isso? Imagine-se falando algo como: “Não, calma lá, também não podemos ser extremistas, não é mesmo? Tudo bem que muito genocídio é ruim, mas já imaginou ficarmos sem NENHUM? QUE ABSURDO!”

É um exemplo ridículo, não? Mas é a que se resume muitos discursos do suposto “anti-extremismo”, da “moderação”, especialmente quando quem se acha “moderado” não enxerga que outros podem vê-lo como extremista e vice-versa.

Na próxima vez que alguém vir com esse papo, pense em sua religião. Se você não tiver religião, pense em alguma filosofia que segue, ou mesmo nas leis que você respeitar, escritas ou não. Não existe Messias ou profeta ou entidade ou filosofia ou lei que não soe extremista para alguém, especialmente fora dela. E não existe “meio crime” para a lei, ainda que exista crime maior ou menor. Não existe “meio mandamento religioso”, mesmo com toda a interpretação do mundo.

Não sei para você, mas para mim, entre “Não matarás” e “Matarás”, o meio-termo parece mais com a segunda opção do que com a primeira, mesmo que não queira parecer assim.

Raposas não Existem

(Este é obviamente um texto de ficção. Ainda que seja sobre raposas, ele não é sobre raposas, mas sobre como é fácil embasar qualquer teoria de conspiração com narrativas que pareçam vagamente fazer algum sentido, e como qualquer prova pode ser usada apenas para reforçar a mente de alguém que já está convencido.)

Eu nunca vi uma raposa de perto. Nenhuma das pessoas que eu conheço viram uma raposa de perto. Por isso, digo que raposas não existem. Elas são uma conspiração.

Você já viu uma raposa? Se não viu, apenas prova meu ponto. Se já viu, saiba que era mentira. Era enganação. Elas não existem.

Quem teria interesse em inventar essa farsa? Que bom que você perguntou!

 A conspiração das raposas é antiga, e exatamente por isso ela atende os mais diversos interesses. As primeiras origens da farsa derivam da Europa e de alguns pontos da Ásia. Acontece que diversos reinos haviam definido limites para a caça de animais, e para conseguirem mais liberdades, as guildas de caçadores começaram a matar galinhas e outros animais de fazendeiros locais, culpando o que chamavam de raposas.

Até aquele momento, raposas eram figuras folclóricas, surgindo sempre em contos populares como seres perspicazes, que viviam em florestas e trapaceavam os humanos sempre que podiam. Algumas histórias desse período sobrevivem em encarnações como “A Raposa e as Uvas”, ou figuras mitológicas japonesas, onde raposas são dotadas de diversos poderes mágicos, inclusive a capacidade de mudar de forma.

Os caçadores disfarçaram algumas peles de cães selvagens e, levando tais seres aos governantes, explicaram que eram os responsáveis pelas dificuldades. É incerto qual dos pontos da Europa que começou a promover a caça às raposas primeiro, mas logo não havia limitação para as eliminarem, o que era apenas uma cobertura para que caçassem livremente o que encontrassem.

Hoje, as origens da conspiração baseados em caça praticamente não existem, sendo referenciados em certas atividades em países como a Inglaterra, mas esses eventos foram responsáveis por pavimentar exibições em zoológicos e outras que detalharei em breve.

Antes disso, é preciso ressaltar que, derivando-se diretamente da farsa inicial da caça de raposas, veio a ideia da utilização de suas peles. Em algum ponto, foi desenvolvida uma técnica de coloração e tratamento da pele de animais abatidos até que gerassem a aparência hoje conhecida de raposas. Diz-se que essa teria sido desenvolvida como uma derivação da desculpa supracitada de caça — afinal, alguns governantes precisavam de uma prova das ameaças que os caçadores citavam -, até que a aparência da pele do animal conquistou membros da realeza e da aristocracia e tornou-se um objeto de moda e luxo.

Inicialmente, peles de raposa eram peles de cães e lobos tratadas e coloridas após a morte dos animais, com qualquer variação justificada por variações de raça. Com o tempo, quando foi necessário gerar algumas versões vivas dos animais, foram utilizados cruzamentos específicos.

Conforme o mercado de caça alcançou estabilidade, foi através do crescimento do interesse das peles no mercado de moda que o mito das raposas voltou a ganhar força. Estes se manteriam por muitos anos, chegando na atualidade, onde alimentariam mais novas frentes.

Em primeiro lugar, em uma derivação direta do mercado de caça, há o mercado de segurança, com empresas criando soluções contra raposas e com profissionais se especializando em caçá-las e afastá-las.

Em segundo lugar, há o mercado de ativismo ambiental, uma vez que a raposa foi desenvolvida tematicamente como um animal silvestre e, portanto, digna de proteção, gerando toda uma frente de arrecadação de dinheiro através de manipulação emocional e até mesmo racional, seguindo na crença de que com as raposas ameaçadas, ecossistemas poderiam entrar em colapso.

Em terceiro lugar, há o mercado de zoológicos e entretenimento. O primeiro se baseia no apelo de exibição desses animais ao público — incluindo também reservas, parques florestas e outros — e, com um mercado que se expande além, para outras áreas de entretenimento, imortaliza a imagem da raposa como algo agradável, que possa ser consumido. Mais recentemente, a utilização da imagem desses animais em redes sociais é um fenômeno específico a mais, demonstrando de maneira única a efetividade da estratégia.

Por trás de todos esses, é claro, há o mercado de ciências, em especial da biologia e subdivisões correlatas, que podem se aproveitar de dinheiro público e privado para estudos de animais inexistentes, e do lucro da publicação de artigos, livros e documentários correlatos.

Considerando todos esses exemplos e inúmeros outros — incluindo, claro, o envolvimento de diversos governos na manutenção da farsa — podemos concluir que motivos não faltam para a manutenção de tal farsa.

Recentemente, me encaminharam vídeos e até mesmo me ofereceram convites para locais onde eu poderia ver raposas, mas recusei. Eu sei que eles farão de tudo para me convencer porque cheguei perto da verdade, mas eu jamais me renderei! Eu ainda irei expor a farsa e liberaria esses pobres animais que foram escravizados e disfarçados para que se assemelhem a essa criatura fictícia.

Enquanto isso, faça sua parte: duvide de raposas, duvide de aqueles que acreditam em raposas e divulgue a verdade sobre a não-existência desses animais. Vamos destruir juntos esse sistema corrupto que se mantém à base de mentiras.

Sobre Respeito

Eu andei pensando sobre as coisas que fazemos, as que queremos fazer, e o respeito que temos por nós mesmos e por essas coisas. Eu já pensei muito nessas coisas de maneira ampla, mas desta vez foi um caso específico que me fez pensar.

Como vocês devem saber, e podem constatar por este texto, eu escrevo. Eu gosto muito de escrever, e tenho investido cada vez mais tempo e energia nessa atividade. É parte da minha personalidade, como de muitas outras pessoas, cair até mesmo em certo exagero quando faço coisas que gosto e que quero muito conquistar.

Uma oportunidade interessante para escritores que surgiu e decidi abraçar este ano foi o concurso do Kindle, da Amazon: para os escolhidos, além de um prêmio em dinheiro, haveria um contrato de publicação da obra em questão. Bem legal, né? Eu já tinha uma ideia muito querida, com um formato ideal para o concurso, e comecei a trabalhar nela com afinco.

Por isso, foi bem estranho, para mim, quando eu decidi que não iria mais participar do concurso, ao menos não desta vez, apesar do projeto e do afinco e de tudo mais. Não tem relação nenhuma com a Amazon, com o Kindle, com o prêmio ou qualquer outra coisa, mas com o próprio livro que eu vinha escrevendo.

Considerando o prazo que comecei a escrevê-lo, mais outras coisas da vida acontecendo simultaneamente — e sempre existem muitas coisas simultaneamente — eu cheguei em um ponto em que notei que, apesar de certos atrasos, se eu corresse, eu conseguiria terminar o livro a tempo. Eu terminaria o livro, e enviaria para o concurso, e concorreria ao prêmio.

Mas aí que eu me fiz algumas perguntas: eu conseguiria terminar o livro com o esmero que esperava para esse projeto? Eu conseguiria revisar? Eu conseguiria, na ocasião de completar a escrita e revisão, conseguir contratar uma diagramação e capas em tempo hábil para algo que eu realmente gostasse? Todas as respostas foram “não”.

Só que uma parte da minha cabeça me acusou quando eu cheguei a essa conclusão. E isso doeu um pouco, porque essa parte da minha cabeça me acusou de “desistir”.

Se você ler o que eu escrevi ali atrás, eu não disse que eu “desisti” do concurso, ainda que “decidi que não iria mais participar” seja basicamente sinônimo. Só que eu usei esse sinônimo conscientemente, porque “desistir” tem um ranço de derrota que não deveria ter.

Essa parte da minha cabeça se digladiou com outras, e por fim ela foi derrotada, ainda que deixando, admito, um leve vazio esquisito. O que a derrotou foi a noção de que eu violaria tudo que considero “respeito” se continuasse com esse prazo e essa meta.

Eu violaria o respeito comigo mesmo, com a própria obra, com os leitores, com o concurso, com os profissionais que talvez envolvesse para capa, diagramação e revisão e com tudo mais na minha vida que sofreria para que eu conseguisse cumprir um prazo entregando uma obra certamente bem abaixo do que eu consideraria certo.

Eu poderia tentar amenizar a minha consciência e usar mil argumentos sobre como finalizei outros livros e textos esse ano, então a desistência “pesaria menos”, mas não é isso que quero fazer, pois isso seria igualmente desrespeitoso, talvez até um pouco mais. Isso seria desrespeitar o passado.

Do mesmo modo, todo o esforço e privação que seria necessário despender para finalizar o livro a tempo seria um desrespeito com o futuro, pois existem muitas coisas acontecendo paralelamente na minha vida nesse momento, e dedicar-me a essa entrega que não sairia como eu gostaria seria um desrespeito com o futuro.

Eu pensei muito e descobri — ou ainda, redescobri, ou me lembrei — que existe honra, classe e respeito em não me contentar com menos, mesmo que isso signifique perder uma oportunidade. Só que não é isso que nós aprendemos, geralmente.

Nós vivemos gritando e sofrendo e nos contentando só para acalmar essa ânsia que criamos para tantas coisas, e no fim das contas em vez de construir o paraíso que queremos nós deixamos tudo em chamas para ter um resultado abaixo do esperado, puramente para que ele seja um resultado, como se toda oportunidade que surgisse fosse a última.

Acho que a lição do dia é que às vezes não dá, e tudo bem. Eu não deixei de fazer meu esforço e sei que não estou encostado. Eu sei que me esforcei por isso e por outras coisas paralelas e sei que existirão várias outras oportunidades de fazer esse livro dar certo.

E é certo que eu não estaria satisfeito, nem feliz com o que eu faria correndo para ter essa entrega. O livro dessa entrega certamente não seria um livro que eu gostaria de ler, então não vou me contentar com menos e pensar que os outros deveriam querer.

Eu tenho muito o que aprender sobre o mundo e a vida e sobre escrita e várias outras coisas, mas se eu puder dar um conselho para todo mundo que ler isto aqui, este é ele: seja lá o que você fizer, não deixe de fazer com respeito. O resto a gente dá um jeito, mas no momento em que o respeito acabar — e o respeito por nós mesmos é o que acaba sendo mais fácil de perder — , acaba tudo.

O Paradoxo da Maioria

Eu já há algum tempo observo a maneira como as pessoas se comportam, como elas falam e quais suas expectativas. Um dos pontos que mais me intrigam, até agora, é a maneira como as pessoas lidam com o conceito de “maioria”, em especial quando ligado à maioria de opinião.

Isso me levou ao conceito que gosto de chamar de “Paradoxo da Maioria”. Eis a definição: o Paradoxo da Maioria é a situação em que a adesão ou rejeição de um indivíduo ao conceito de “maioria” tem relação unicamente com sua adesão ou rejeição ao comportamento da maioria observada, e essa adesão ou rejeição ao conceito de “maioria” existe separadamente de qualquer outra adesão ou rejeição de comportamento de maioria que possa vir a ser observado, pois essa adesão ou rejeição do conceito de “maioria” é meramente instrumental.

Trocando em miúdos, o Paradoxo da Maioria se refere à situação em que as pessoas gostam de falar que são maioria quando acham que é legal falar que é maioria, e adoram criticar maiorias quando não gostam do que é maioria, e as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo, porque as pessoas usam isso apenas quando é conveniente.

Note que eu não relacionei o contexto necessariamente à adesão ou rejeição de um conceito de “grupo”, nem à adesão ou rejeição do conceito (em qualquer aplicação) de “minoria”. Em muitos casos, tanto “grupo” como “minoria” podem ser usados de modo complementar a esse, mas o paradoxo existe independentemente deles.

Um uso frequente, como tantos outros tipos de comportamento hipócrita e/ou contraditório, é a política. Creio que todos podemos pensar em exemplos em que a maioria que levou à vitória de um candidato foi execrada pelos que o rejeitavam, mas esses mesmos indivíduos comemoraram e apontaram como valoroso o voto maioritário quando se tratava de um candidato que aprovavam.

Na política e em outros universos similares, a identificação do Paradoxo é fácil ao observarmos a utilização de termos como “ovelhas”, “massa de manobra” e termos similares, que designam o momento de rejeição da maioria, ignorando a adesão de maioria de outros momentos, que será prontamente utilizada como ponto qualificador de qualquer argumento, quando isso for relevante.

Do mesmo modo, é possível observar quando o comportamento de conformidade é desejado pelo indivíduo que faz a análise — “a maioria está correta e/ou se manifestou de tal forma, e a minoria deve obedecê-la” -, ou indesejado — “a maioria está incorreta e/ou é burra, e apenas uma minoria privilegiada percebe a verdade e resiste a ela” -, ajustando seu comportamento posterior de acordo.

Pode-se pensar que existe um meio-termo, alguns cenários específicos em que a maioria é positiva e outros em que ela é negativa, mas apontar que existem variações nos motivos por trás da utilização de conceitos de “maioria” é relevante somente até certo ponto, ou apenas no isolamento de certos tópicos, o que é efetivamente insustentável como prática que possa ser considerada honesta, já que nada existe de maneira isolada na sociedade.

Essa utilização em qualquer compartimentalização efetivamente será sujeita a subjetividade, e quando mais inconsequente for a noção de maioria para qualquer atividade ética e/ou moral, maior a incapacidade de atribuição ou remoção de valor de maioria.

O resultado invariável, assim, caso não se supere a visão simplória de “maioria” versus “minoria”, é a hipocrisia. Cada indivíduo passa a ser uma combinação de pertencimento, aprovações e reprovações cruzadas, existindo ignorando o fator analítico básico que deveria estruturá-las. Teremos uma pessoa, por exemplo, que aprecia o fato de ter um gosto musical de minoria e rejeita a maioria como ignorante, que aprecia o fato de fazer parte de uma maioria política e rejeita a minoria como ignorante, que aspira ser como uma minoria intelectual enquanto rejeita a maioria a que pertence nesse sentido.

No fim das contas, pode-se atribuir o desejo de rejeição ou adesão à “maioria” dentro de dois aspectos simples: controle e ordem. A rejeição (“a maioria é burra”) surge quando entende-se que o que é majoritário naquele momento é fora da ordem esperada, e a crítica e desejo de mudança é um desejo de controle daquele aspecto. Igualmente, a adesão (“a maioria está certa”) é a confirmação do que se entende com ordem esperada e desejo de conservação. O paradoxo, assim, não é notado pelos que o perpetram, porque eles focam efetivamente no cenário, e não no meio como tentam tornar o cenário real. É a ideia que lhes é mais interessante, não o meio.

Duvida? A melhor maneira de entender o Paradoxo da Maioria é entrar em uma discussão sobre democracia. Interessantemente, esse desprezo pela “maioria” surge mesmo dos supostos devotos protetores da democracia como o bem maior de uma sociedade civilizada, desde que eles estejam suficientemente insatisfeitos. Os maiores amantes da democracia, no geral, são aqueles que se beneficiaram dela naquele momento.

Existe alguma “cura” para isso? Talvez não para o desejo de ordem e de controle, mas existe uma cura para o Paradoxo. É a mesma cura que existe para todo e qualquer tipo de hipocrisia: não repetí-la. O melhor passo para uma sociedade se tornar menos hipócrita é se tornar menos hipócrita, fazendo e falando menos hipocrisias.

Nesse sentido, entende-se que é mais honesto — além de efetivamente mais inteligente — evitar toda e qualquer utilização de “maioria” como definidor de indicação de qualidade ou falta de qualidade. A utilização efetivamente honesta é da “maioria” apenas como o que ela realmente é: maior quantidade dentro de uma amostragem. Nada mais do que isso.

Um indivíduo que se considere honesto e consistente não poderá manter a visão eterna de que a maioria sempre está certa ou errada, com risco de se contradizer em outros aspectos. Não só isso, ele se torna mais livre, pois permite-se (idealmente) a análise de fatos, características e comportamentos de modo mais independente.

É só parar de julgar a maioria, positiva ou negativamente por ser (ou não ser) maioria. Se “o seu lado” ganhou uma eleição, comemore a vantagem numérica. Se perdeu, se entristeça e reclame que não teve a vantagem numérica. Mas nunca, nunca classifique a maioria puramente por ela ser a maioria. Caso contrário, você irá efetivamente assumir o compromisso de admitir uma superioridade indevida a quem discorda, ou a própria inferioridade indevida, dependendo de como considere as maiorias.

É proibido

Você sabia que pode tentar proibir uma ideia, mas não pode me impedir de pensá-la?

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A corrupção é a nossa sombra

Em meio ao cenário político caótico que nos encontramos, repetidamente surgem os questionamentos sobre motivações e sobre manifestações políticas, geralmente como o velho “Ninguém vai fazer nada sobre isso?” ou “Ninguém vai pra rua?”. O silêncio e a passividade geram questionamentos repetidos e ineficazes, mais como maneiras de apontar hipocrisias do que de efetivamente gerar mudança.

Ficamos assistindo alguma decisão absurda e prevendo manifestações que não acontecem, ou que, se acontecem, um grupo ou outro olha para os que se manifestam com olhares de julgamento e a certeza de que a causa que eles defendem é problemática, quando não simplesmente errada, factual e/ou moralmente falando.

“Não é sobre a corrupção, nunca foi”, dizem alguns, explicando as reais motivações das manifestações. Seria tudo sobre outros objetivos que teriam relação com conquistar objetivos políticos específicos a qualquer custo.

Eu discordo. Ou ainda, concordo em parte.

Eu acredito que, excetuando-se os políticos de dentro dessa equação — mais algumas pequenas legiões financiadas e influenciadas diretamente por eles — a maior parte das pessoas realmente quer o fim da corrupção. É verdade. Eles o querem sinceramente e verdadeiramente. Ainda que por vezes a definição de corrupção possa variar, eles querem.

O problema maior é que a corrupção é uma sombra. Ela é algo que sempre está lá, que pode até mudar de forma, mas que nunca irá sumir. É algo que conseguimos ignorar com facilidade, e algo que pensamos que todo mundo tem.

A corrupção é sombra no sentido que estamos tão acostumados com ela que passou a ser um pressuposto. Ela não é mais um fato, mas uma condição ou meio.

Acima de tudo, a corrupção não é sólida. Não conseguimos pegar na corrupção, apertá-la pelo pescoço, jogá-la na cadeia. Mas conseguimos apontá-la, entendê-la e, no geral, indicar onde é que está, quando visível. É por isso que é fácil “lutar” contra ela, mesmo sem fazer nada prático. É fácil se posicionar “contra a corrupção”, efetivamente sem demonstrar qualquer ação para fazer algo em relação a ela. Falar “sou contra a corrupção” é como falar “eu tenho uma sombra”. É verdade, mas não muda nada.

Quando partimos dessa mentalidade, acredito que fique mais fácil compreender o que acontece. Afinal, se todos são contra a corrupção, como é que ela persiste? Como é que que estamos tendo esta discussão?

Minha hipótese é a visão de uma recompensa. Ou a falta dela.

Explico: as grandes mudanças políticas dos últimos tempos sempre tiveram alvos muito específicos. Elas tiveram uma trama clara, com seus personagens e motivações. Tinham lados, coalizões, mocinhos e bandidos, ainda que cada um desses varie de acordo com alinhamento político.

Nós podemos sempre falar que o que fizemos ou fazemos é contra a corrupção, mas sabe-se muito bem que escolhemos algum tipo de corrupção quando vamos às ruas, quando fazemos um vídeo engraçadinho para compartilhar no Facebook ou WhatsApp, quando damos atenção a um comentarista político. Nós sabemos sobre quem é que são os fatos que estão sendo apresentados e quem estamos omitindo quando estamos apresentando os fatos. Nós temos alvos, métodos e visões de mundo. Nós temos alinhamentos políticos. Nós temos objetivos.

Em um cenário em que a corrupção não tem partido específico, ela deixa de ser o peso principal e são esses outros aspectos que importam mais. A água está no calcanhar de todos, e se vamos chutar na direção do adversário, sabemos que também vamos nos molhar, então nós começamos a olhar para o que consegue flutuar acima da água.

Não existe a manifestação “pura” contra a corrupção, por mais que ela seja um muro. E não faria sentido existir, mesmo. Não faria sentido — ainda que dê vontade — bradarmos ao céu contra a existência da corrupção como um todo e esperarmos que isso nos ajude e nos salve do mal, amém. A corrupção é feita de partes, e se tentamos atirar em todas ao mesmo tempo, não atingimos nenhuma delas em cheio. Nós sabemos disso, mesmo quando fingimos que não.

O que fazemos, então? Nós nos manifestamos quando podemos ver uma recompensa em agir em algum dos elementos da corrupção. Não estou falando em ganhar dinheiro — ainda que certamente tenha muita gente ganhando dinheiro às custas de revolta política — estou falando em ter um objetivo que reúna força motriz. E essa é a vantagem e o perigo, porque é quando deixamos de olhar para a sombra, para a água que está chegando ao umbigo.

Observe que todas as grandes manifestações políticas recentes tiveram objetivos muito claros: elas eram contra alguém, a favor de alguém, por um grupo específico, contra um grupo específico, a favor de um grupo específico, contra uma decisão específica, a favor de uma decisão específica ou uma combinação desses elementos. A recompensa era a remoção dos elementos indesejados e adição dos desejados. A corrupção é um pano de fundo, mas esses são os motivos.

Quando não existe a manifestação, invariavelmente há dois motivos possíveis: ou o público possível de adesão a essa manifestação não enxerga uma recompensa imediata e mensurável, ou há uma recompensa maior por não se manifestar.

O que torna tudo mais complicado, aqui, é que uma recompensa pode ser facilmente composta de conceitos subjetivos como o sentimento de adesão ou não a um grupo e/ou ideologia ou mesmo que “o outro lado” não “ganhe”. Muitas vezes, o orgulho de ver o outro lado perder é uma recompensa maior do que qualquer prejuízo garantido pela passividade frente a uma alteração social. É algo puramente emocional.

Apoiar o político que não se gosta, mas cujo plano é bom, se torna assim algo ruim porque ele é um “inimigo”. Apoiar o político de que se gosta, mas cujo plano é ruim, se torna assim algo bom porque ele é um “aliado”. A justificativa da corrupção pode surgir a qualquer hora igualmente para os dois, mas ela pesará muito mais para quem você discorda, mesmo que o que ele apoia iria efetivamente te ajudar.

Em um cenário político, o envolvimento emocional é tão grande que muitas vezes consideramos um objetivo maior levar um tiro na cabeça de um aliado do que arriscar que o inimigo tome a arma e atire em qualquer outro lugar — inclusive no problema.

Os políticos sabem muito bem disso. Seus apoiadores, também. Por isso eles sempre desenvolverão as recompensas de acordo com o que é mais interessante para eles, seja incentivar a queda de uma figura política, a aprovação de um projeto, ou a passividade contra qualquer ação corrupta, colocando como recompensa a paz, tranquilidade e estabilidade supostamente decorrentes da inação.

Por isso, lembre-se sempre que é conveniente fingirmos que “é tudo a mesma coisa” e “não tem jeito” e “vamos fazer o que?”, e falar“esses corruptos”, mas não dar nomes aos bois. Quando homogeneizamos a corrupção, lentamente derrubamos recompensas e aumentamos a sombra, tornando tudo mais distante e impalpável. Quando homogeneizamos a corrupção, nós não fazemos nada além de defender quem tem poder para cometer atos de corrupção.

Assim, entenda que uma manifestação que não faz sentido para você simplesmente não atende a uma recompensa que você enxerga ou considera válida.

Dentro dessa lógica, não estranhe quando não existir uma manifestação — simplesmente não existem pessoas enxergando recompensa o suficiente em fazer alguma coisa, ou simplesmente existem pessoas enxergando recompensa maior em não fazer nada. Aquele que se posiciona “contra a corrupção” mas mantém seu silêncio e inação, por mais que diga o contrário, efetivamente está em uma dessas categorias.

Se você enxerga a recompensa, torne-a visível. Organize as pessoas que enxergarem a recompensa. Mas lembre-se sempre: se um político ou qualquer lado de uma briga organizou uma recompensa para você, é bem provável que a recompensa seja muito mais emocional do que factual.