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Eles vão ver só

Eu nunca encontrei alguém que estivesse plenamente satisfeito com o mundo. Eu nunca estive plenamente satisfeito com o mundo, e imagino que nunca estarei. Junto disso, às vezes nós ficamos tão insatisfeitos com o que julgamos que seja um absurdo acontecendo ao nosso redor, que isso nos gera uma revolta.

Quem nunca sonhou com um mundo que visse tudo como enxergamos, julgando que nossa solução — para tudo, ou ao menos para algum aspecto — fosse a fórmula mágica que faltava para resolver tudo? Quem nunca viu as hipocrisias e ignorâncias do mundo e pensou como seria se elas fossem diferentes?

Só que nem sempre nossas pretensões viram realidade, tanto por serem alterações além de nosso poder, quanto por não podermos fazer — ao menos não com um passe de mágica — que todos concordem com nossa visão. Nossas expectativas para o mundo se tornam frustrações, e nossa revolta não necessariamente some.

E sempre há o “outro”. Seja a outra ideia, o opositor à nossa, o semelhante que não age como seria conveniente a nós que ele agisse ou, no fim das contas, a realidade que não corresponde à nossa visão. Todos eles são agentes do absurdo que vemos no mundo, de um jeito ou de outro, e muitos de nós tentam educá-los e combatê-los para, através deles, mudar o absurdo do mundo. Mas essas lutas também podem ser infrutíferas — ou, ao menos, nos parecerem infrutíferas.

Nessas horas, quando vemos algo absurdo acontecendo e nos sentimentos os únicos iluminados — ou, quem sabe, parte de uma minoria iluminada — mas não há nada que possamos fazer, é quando surge uma vontade venenosa: nós estamos tão certos de que o outro lado está errado, que entendemos que o único caminho para eles é a ruína. Ou eles se arruinarão, ou seus apoiadores se arruinarão, ou eles arruinarão as circunstâncias ou práticas e métodos ou as ideias ou até o próprio tecido da realidade, de tão cheias de ruína que são suas ideias.

“Eles vão ver só”, nós pensamos, olhando para baixo do topo da torre intocável de nossa certeza para as ruínas imaginárias que, sabemos muito bem, invariavelmente surgirão como fruto das ações de que discordamos. É claro que nós seremos intocados pela desgraça certa ou, se não formos intocados, ao menos a desgraça sempre será menor (ainda que terrível) do que a satisfação de, no meio da lama, podermos apontar o dedo na cara daqueles de quem discordamos e anunciarmos “eu te disse!”

Isso não é um pensamento incomum. O impulso de estar certo é algo básico à maioria de nós, especialmente quando o assunto de que tratamos envolve muita emoção, como é o caso de política. Por isso mesmo, é sempre muito tentador seguir com esse comportamento.

A recompensa é sempre grande: no caso de desgraça, podemos falar que estávamos certos, que os outros estavam errados, nos convencer que nossa intromissão ignorada no assunto era a fórmula do sucesso não reconhecida e, no meio de todo o processo, ainda podemos nos isentar completamente de qualquer responsabilidade pelo que aconteceu! Fantástico, não?

Se a desgraça prevista não se cumprir, nós não declaramos derrota. Ah, não, certamente que não — nós encontraremos ainda os pontos de discordância, pois mesmo que desse certo, não foi o que queríamos, e o que queríamos invariavelmente seria superior à realidade. A incapacidade de alcance de uma expectativa de sucesso que nós definirmos se torna a prova cabal de nossa certeza, e certamente poderemos apontar algo para falar “viu, eu não disse? Agora eles estão vendo!”

Não importa o cenário, se nos convencemos que “eles vão ver só”, para nós, eles sempre “vão ver”, até quando nós “perdemos”. Nós nos damos a licença moral de, ao não termos culpa de nada, podermos nos afastar ideologicamente para sempre garantir nossa superioridade moral.

Só que isso é um problema não só pela isenção óbvia de nossas ações, mas pelo fato de que se o mundo fez uma decisão por pensar diferente, é bem provável que a lição que o mundo aprenda — se é que vai aprender alguma — também vai seguir em uma lógica diferente da nossa.

Veja, as pessoas podem nem mesmo identificar a falha em seus planos. Ele pode ser a única maneira que tinham de fazer algo. Ou pode ser que elas realmente “vejam só” alguma coisa, mas ainda não será o nosso “ver só”. Se virem, elas vão conseguir uma justificativa própria para isso, do mesmo jeito que nós conseguimos uma justificativa para as nossas próprias ideias e percepções.

Especialmente se os outros já conhecem a nossa visão e têm uma resposta emocional a ela, elas continuarão na lógica delas — e nós na nossa. Se o outro tiver se convencido de que está tudo bem, contra qualquer evidência do contrário, ele acreditará que tudo está bem. O mesmo, claro, ocorre com o oposto — não há realidade alguma que sobreviva a um pessimista, do mesmo modo que não há otimismo que não amenize qualquer desgraça.

Assim, por mais que dê vontade, às vezes, de entregar o mundo à própria destruição, ao que é ilógico e absurdo e que efetivamente nos levará como um todo ao apocalipse, apenas para que possamos dizer com certeza que tudo aconteceu porque fomos ignorados, pense que é só quem pensa de um jeito que poderá lutar por aquele jeito, porque quem não enxerga a lama não enxergará mesmo que esteja nadando nela de braçada. E se você se ausentar de fazer algo pelo que concorda, tem uma pessoa a menos lutando por aquele jeito.

Torcer contra ou se ausentar, no fim das contas, prejudica a todos e a você, e cada um vai achar uma explicação própria para o problema, e achar erro nas soluções, e achar soluções nos erros.

O pensamento do “eles vão ver só” tem três erros muito básicos: o primeiro é a suposição que “eles” vão ver o que está acontecendo da mesma maneira que você. O segundo é a suposição de que eles sempre vão entender os problemas do resultado como fruto das próprias ações. O terceiro é supor que “eles” existem separadamente de nós e que a ruína nunca vai nos afetar.

Esse pensamento simultaneamente superestima as capacidades de percepção e raciocínio do outro e subestima a capacidade de abstração e de orgulho, ao mesmo tempo que, ignorantemente, nos diz que eles são extremamente diferentes de nós e orgulhosamente que nós estamos necessariamente sempre certos.

A lição básica é esta: eles não são diferentes de nós. Eles somos nós. Eles podem pensar diferente de nós, ter aparência diferente ou outros hábitos, mas eles também têm orgulho de suas convicções, eles também têm limitações e é claro que eles também querem estar certos.

Se você acha que eles são inalcançáveis e que tudo que fazem levará todos à ruína, saiba que é provável que pensem o mesmo de você, com a exceção de que, se você parou, nada garante que o outro lado parou também. E é nesse momento que o orgulho mais paralisa — e é nesse momento que aqueles que tem algum poder de mudança vão correr atrás dos próprios interesses, podendo ser apoiados por quem está fazendo alguma coisa, e é nessa hora que o que você previa no “eles vão ver só” ataca, e não são só “eles” que vão ver.

Lembre-se: oposição de ideias sempre vai existir, dos assuntos mais simples aos mais complexos. E nisso, quanto mais sem cara é seu inimigo, quanto mais “massa de manobra” e quanto mais “inimigo”, maior a chance de que você seja igualzinho a ele. Nenhuma “massa de manobra” acha que é “massa de manobra”, mesmo quando é manobrada em direção a outra massa que pensa que é muito diferente.

E lembre-se que a destruição que a ignorância/imoralidade/má-vontade/etc. do outro lado promover também é sempre sua.

Caldo de Peixe (ou “Ninguém Dúvida do que é Padrão”)

(Texto originalmente publicado no Medium)

Recentemente, eu realizei um sonho: fiz uma viagem ao Japão. Na companhia de pessoas queridas, visitei a Terra do Sol Nascente, onde tivemos todo tipo de experiência interessantes e interagimos diretamente com uma cultura distante de nós em maneiras bem maiores do que a viagem de cerca de 24 horas de duração (sem contar o tempo entre escalas) e as 12 horas de diferença de fuso horário.

Eu poderia escrever inúmeras histórias e falar longamente sobre minhas experiências naquele país, onde aprendi muito sobre muitas coisas, inclusive sobre mim mesmo e sobre os outros. Eventualmente, espero realmente falar longamente e contar essas histórias. Mas agora quero falar sobre caldo de peixe.

Na verdade, quero falar sobre comportamento humano, mas acontece que caldo de peixe é uma ótima maneira de falar sobre comportamento humano.

É justo começar esse relato com a informação de que não me alimento com carnes. E sim, isso inclui também peixe. Do grupo de cinco viajantes, eu não era o único adepto do vegetarianismo — Mariana Rolin, amiga minha de longa data, tem uma dianteira de uns bons anos nessa frente, com toda a experiência que isso traz. Quando partimos na viagem, nós estávamos preparados para tomar todo tipo de precaução, mas nada poderia ter nos preparado para o Japão.

Japoneses gostam muito de peixes. Sendo um país insular, é natural que a pesca fosse historicamente uma atividade básica do povo japonês e, junto disso, o consumo de peixe. Somando a isso o histórico de guerras — e a carga de privações que elas trazem -, eles também têm a característica de tantos outros povos de aproveitar tudo que podem como matéria-prima e desperdiçarem muito pouco.

Desse modo, japoneses são extremamente adeptos da alimentação com caldo de peixe. Ou, como logo aprendemos em japonês, em nome de nossa sobrevivência, “dashi”. Boa parte da culinária tradicional japonesa leva peixe ou algum fruto do mar, mas quando não leva, é quase certo que levará dashi. Para nossa surpresa, até mesmo o aparentemente seguro omeletinho servido em basicamente todas as casas de sushi do país levava dashi.

Quando não havia dashi, havia “katsuo” (“bonito”, um parente do atum geralmente servido ressecado e em pedaços e chamado de “katsuobushi”). Quando não havia dashi ou katsuo, havia caldo de galinha ou de carne bovina ou até mesmo de ostra. As misturas surgem de maneiras alternadamente óbvias e discretas, mas sempre de modos que impossibilitam a alimentação de um vegetariano, já que muitas vezes fazem parte de caldos e da massa dos alimentos de modo que não há a opção de “pedir para tirar”. Conseguir tomar lámen vegetariano requereu paciência, peregrinações pelas ruas de Kyoto e filas nos dois restaurantes em que nos aventuramos.

Percebemos que estávamos em um campo minado quando nem mesmo as compras em supermercado eram seguras: uma alternativa alimentar que já foi integrada ao dia-a-dia do japonês é o curry. O empréstimo da Índia, imaginamos, certamente teria todo tipo de garantia e facilidade, dado o vegetarianismo do país. Mas bastava ler os ingredientes atrás dos rótulos para entender que era a minoria dos produtos que não levava algum produto de origem animal em sua mistura. O padrão dos caldos (aqui, de carne ou frango) havia contaminado até mesmo o curry.

No meio da viagem, enquanto tentávamos garantir a paciência dos carnívoros do grupo e não depender dos mesmos pratos repetidamente — quem pensa que vegetarianos só comem comida saudável nunca teve que sobreviver à base de carboidratos e fritura por pura falta de opção -, Mari me apresentou uma ideia que foi e continua sendo extremamente útil para meu entendimento da humanidade.

Seus anos de experiência com vegetarianismo já a haviam deixado acostumada a certa versatilidade, especialmente morando na Irlanda, onde frequentemente recorre a “opções” vegetarianas nos restaurantes que frequenta.

As aspas ficam pelo sarcasmo que ela deixa explícito a cada menção desse termo, especialmente porque geralmente a “opção” vegetariana é um único prato sem carnes em um cardápio inteiro. “Se eu só tenho uma opção, não é uma opção,” reforçou ela na primeira vez que falou a respeito disso. O Japão havia invariavelmente levantado esse assunto, com todas essas questões, mas até mesmo para ela era uma experiência inédita não encontrar opção (ou “opção”) alguma em uma rua repleta de restaurantes. Em um momento de frustração, ela desabafou: “Poderiam só não colocar dashi em tudo?”

A resposta que infelizmente tivemos foi a seguinte: eles poderiam, mas não poderiam.

Claro, a culinária japonesa é rica o suficiente em ingredientes e técnicas para criações fantásticas para vegetarianos, mas acontece que eles não precisam pensar nisso, então eles não pensam nisso. O dashi é tão básico na culinária deles que ele se torna o óbvio, padrão. E ninguém duvida do óbvio. Ninguém duvida do padrão.

Mesmo na mais cosmopolita das cidades japonesas, vegetarianismo é um conceito que pode ser considerado alienígena para muitos. Quando questionamos a esse respeito, recebemos a resposta vaga que japoneses não ligam muito para vegetarianismo porque “culturalmente são acostumados a não deixar sobrar nada no prato“, o que é uma resposta que não faz sentido algum, se você considerar que é possível não ter o peixe (ou qualquer outro bicho) no prato, para começar.

Nossa hipótese era que, como tantas outras coisas que as pessoas não pensam, eles simplesmente não pensaram nisso porque não precisaram pensar nisso. Faz muito mais sentido, para mim, se observarmos que a maior parte dos locais que tinham variedade de comida vegetariana eram de origem ou foco estrangeiro, como alguns restaurantes indianos que chegamos a visitar.

Saindo brevemente da presença e da ausência de carnes, o episódio deixou uma lição muito mais clara: o padrão é perigoso porque ele é invisível. O padrão nos deixa fazendo coisas que nem percebemos que fazemos, nos deixa fazendo coisas que nem sempre são necessárias, simplesmente porque nós nos acostumamos a fazer. Você já pensou nos hábitos que tem? Quantas rebarbas e exageros — ou falhas e ausências — você tem que podem simplesmente serem padrões que você se acostumou?

Me lembro de um episódio inócuo, mas que me foi extremamente forte: se você conviver comigo, como com qualquer outro ser humano, você irá observar que tenho vários hábitos e peculiaridades específicas. Uma delas é um hábito que começou como uma piada, mas que passou a fazer parte do meu repertório de interações: por vezes, depois de confirmar uma informação com uma pessoa, eu sorrio, aponto os indicadores com os polegares para o alto, como se fossem armas, e piscando um dos olhos estalo a língua contra os dentes. Soa ridículo, e realmente é um pouco, mas as pessoas levam como brincadeira, já que o hábito só surge em momentos de brincadeira.

Me lembro de uma ocasião em que uma amiga do trabalho foi me imitar e repetiu o gesto. Eu me surpreendi com aquilo, pois não lembrava de nunca ter feito essa brincadeira com ela. Quando questionei, ela respondeu, surpresa: “Rodrigo, você sempre faz isso.” Outras pessoas confirmaram. Eu sempre fazia aquela brincadeira com eles, e estava tão automatizado que não me lembrava de nunca tê-lo feito naquele ambiente.

Imagine que outros hábitos eu não devo ter agregado à minha vida em tantas outras áreas? Imagine quanto caldo de peixe metafórico não existe nos omeletes metafóricos da minha vida?

Voltando ao presente, pouco dias depois da minha viagem ao Japão, já no Brasil, me deparei com outra situação absurda na Páscoa: vi inúmeros amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos discutindo longamente na vida real e na Internet seus planos de comer peixe em vez de carne na Sexta-Feira Santa. As conversas eram movimentadas, muitas com certo desespero e outras com uma empáfia única.

Vendo aquilo, pensei algo que muitos vegetarianos certamente já pensaram no decorrer da história: mesmo para quem come carne habitualmente isso nunca era uma preocupação em nenhum outro momento. Pense bem — comendo ou não carne, sempre existem opções hors concours, como uma boa e velha macarronada com molho de tomate.

 Mas não — o padrão de Páscoa é outro: ninguém está pensando em “não comer carne”, mas sim em “como é que eu vou substituir a carne que eu poderia comer hoje?” Encontrou o erro? O hábito é tão incutido, e ao mesmo tempo invisível, que ele cria um novo processo e até uma nova demanda. Se a carne não fosse proibida, pode ser que o prato do dia tivesse sido a tal macarronada e ninguém teria sentido falta. Sem falar que, para muita gente, o hábito chegou a evoluir para outro patamar — não basta não comer carne e ter que comer peixe, o peixe deve ser bacalhau. Engraçado, não?

Proponho um exercício. Ele é difícil, especialmente por algo de que não pensamos, mas pegue algo que está automático — a maneira que você fala, ou como dirige, ou como escreve — e disseque esse gesto. Passe dias prestando atenção nele. Encontre os erros, as sobras e até os pontos positivos. É surpreendente, eu garanto.

Ah, e se tiver um restaurante, ofereça opções vegetarianas. Chega de dashi e de carnes escondidas. Obrigado.

Quanto mais medo, menos crowd

“O medo é assassino da mente. O medo é a pequena morte que traz total obliteração. Enfrentarei meus medos, permitirei que passem sobre mim e através de mim, e quando tiverem passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho. Onde o medo esteve não restará nada. Somente eu permanecerei.” — Frank Herbert, “Duna”

(Texto originalmente publicado no Medium.)

No meu dia-a-dia, eu trabalho com publicidade, especialmente em redes sociais. Isso me permite analisar todo tipo de interação humana e, como boa parte do que vejo é no Facebook, muitas vezes consigo ver todos os espectros da ação humana em um espaço consideravelmente restrito. Existem, claro, aqueles que usam a rede social para mostrarem apenas seu melhor, mas para outros ela é uma máscara de anonimato e de liberdade. Nenhuma novidade aqui, né?

Um dos clientes que atendo é um destino turístico. É um destino com muito o que se fazer, incluindo praias. Foi em um post sobre uma de suas praias de surf que tive, recentemente, uma realização importante.

A imagem compartilhada no Facebook pela página do meu cliente mostrava um grupo de surfistas e convidava à experiência que aquelas praias ofereciam. Era um conteúdo promocional comum que, impulsionado por um investimento em mídia paga na plataforma, foi exibido para muitos usuários. Só que nem todos receberam bem aquela imagem.

Para muitos usuários, a praia era apenas motivo de medo. Temiam ataques de tubarões, chegando até mesmo a censurar a página, como se fosse irresponsável do destino recomendar praias “infestadas” (palavras deles, não minhas). Alguns eram mais educados, mas a maioria dos que tinham medo chegavam a ser agressivos.

Não era surpresa alguma. Quando você lida com turismo, especialmente com países que estão fora do grande circuito, você invariavelmente vai lidar com bastante preconceito, que se manifesta de maneiras diversas. Como tudo que é diferente do que as pessoas estão acostumadas, reações automáticas de rejeição e medo são comuns, e nesse momento reina o preconceito, geralmente disfarçado de conhecimento. Não era a primeira vez que ouvimos reclamações sobre tubarões, e não será a última. Os tubarões, aliás, não inexistem, mas o lugar oferece tanto perigo quanto, digamos, algumas praias brasileiras.

Só que, para alguns usuários, a reação de rejeição se tornava agressividade rapidamente. Piadas de mau gosto se alternavam a insultos e insinuações pejorativas sobre a índole dos moradores do país e de seu papel no mundo. Era um pouco mais virulento que o habitual, tanto que muitos comentários nem haviam sido respondidos e haviam sido ocultados para minimizar o estrago — com o tempo, você identifica com facilidade o usuários que quer e o que não quer uma resposta, e para muitas páginas compensa mais ocultar o agressor do que lhe dar o gosto de uma resposta (e, assim, de um mínimo de exposição da marca em questão).

No meio dos comentários, havia um grupo de surfistas que parecia se divertir. Deles vinham tanto críticas quanto piadas. Em sua maioria, comentavam frases que claramente exageravam os perigos, com indicações de humor implícitas. Um deles, menos sutil, sugeria que fosse bom que esses comentários existissem, incentivando outros surfistas a reproduzirem mais comentários que incentivassem o medo. Outro concordava, e fazia sua parte. E então eu vi uma frase que não esquecerei tão cedo: “Quanto mais medo, menos crowd.”

Não sou do meio do surf, mas não precisei ser para me lembrar que “crowd” era a frase usada para definir… bem, literalmente “multidão”, ou ainda, o público não-surfista de uma praia. Quanto menos banhistas, mais espaço para surfistas. Quanto mais medo, menos crowd.

Aquilo me soou insultivo. Eu me senti pessoalmente insultado, não apenas por ser meu cliente, mas pelo que aquela ideia representava. É lógico que, como um profissional de comunicação, eu já estou mais acostumado a ver comunicação voltada à geração de medo (Não é mesmo, imprensa? E vocês, políticos, como andam?), mas quando alguém colocou em palavras tão descaradas, algo machucou por dentro.

“Quanto mais medo, menos crowd” é a representação básica de um problema sério da humanidade. Uma frase que resume a maneira como o medo nos controla, como nós permitimos que ele nos controle, e como as pessoas podem utilizar isso a seu favor.

Não é novidade nenhuma que medo vende e evita vendas. Medo junta e medo separada. Medo gera obediência e desobediência. Dependendo onde você coloca o medo e como você faz com que ele se apresente, você tem um poder desprezível sobre as pessoas.

A questão maior é que, quando nós temos medo, do mesmo jeito que quando temos praticamente qualquer outro sentimento, nós tentamos explicá-lo, fazer com que seja algo que seja aceitável para nós, mesmo quando não há motivo algum para que seja. Repito: no medo reina o preconceito, geralmente disfarçado de conhecimento. Como nós confundimos a explicação de nosso medo com a explicação da realidade, nós nos abraçamos a ele como se fosse razão.

Quanto mais medo, menos crowd. Quanto menos razão temos para enfrentar o mundo, menos entramos no caminho dos que entendem a realidade e que querem se aproveitar de nossa ignorância.

Nem todos que pregam medo são mal-intencionados, mas eles não necessariamente são racionais.
Nem todos aqueles que reproduzem medo estão errados, mas eles não necessariamente são racionais.
Nem todos motivos para medo são irreais, mas medo nos afasta da racionalidade.

Ignorância leva ao medo, e o medo leva a uma ignorância ainda maior. Existem aqueles que sabem disso, e é nosso dever agir a favor da razão sempre que possível.

É claro, não precisamos temer esses que buscam a ignorância. Se fizermos isso, já começamos a errar. E o medo virá, invariavelmente o medo virá, se não de fora, de dentro. Mas é nessa hora que devemos superá-lo.

Roupas têm nomes bobos

Sou meio metido a filósofo, admito. Por vezes, penso profundamente sobre o futuro do mundo, sobre a natureza da humanidade, sobre a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais, e sobre sua resposta.

Por vezes, eu penso em bobeiras. Por vezes, eu penso em palavras. Por vezes, eu penso como palavras e bobeiras são muito próximas. E penso em palavras bobas, também.

Esse é um tipo de exercício muito interessante, porque ele pode te levar muito longe e, mesmo que não pareça ter nenhum uso prático na vida, te dá uma musculatura legal para quebrar a cabeça com coisas mais sérias. Mas ninguém vai te julgar (muito) se você se divertir com as perguntas sem consequência e as totalmente bobas.

Por exemplo: roupas têm nomes bobos. Muito bobos mesmo. Sério. Tire dois minutinhos da sua vida e pense sobre os nomes bobos de roupas.

Pense comigo: o que define calças como calças? É a cintura? As pernas? Há muito o que se pensar sobre elas, porque essa definição pode ser muito importante (?) para entender outras definições.

Por exemplo: se “shorts” se diferenciam por serem calças curtas (“short pants”), podemos dizer que o fator de diferenciação é o tamanho das pernas. Entendo que bermudas — que, aliás, aparentemente foram inventadas mesmo nas Bermudas — ficam fora dessa definição, porque têm esse apelido.

Mas e as calcinhas? E as calçolas? Uma definição de dicionário diz que calcinhas são efetivamente calças curtas, mas tecnicamente não deveríamos, pela mesma lógica, chamar os shorts de “calcinhas”, abandonando o termo em inglês? E, progredindo nessa lógica, não deveriam as calcinhas alcançarem um novo patamar de diminutivo? “Calcinhazinhas”? “Calcetes”?

Outra: camisas. Para começar, o que raios define “camisas” como camisas? Qual é o critério? Da “camisa” para a “camiseta”, o que muda são os botões? Ou o acabamento, como um todo?

Não podemos dizer que são as mangas, porque tanto “camisas” quanto “camisetas” possuem mangas. Regatas, ou “camisas regatas”, ainda são camisas, mesmo não tendo mangas, então não é tanto a ausência ou presença de pano nos braços que define uma camisa como tal.

Assim, temos que seguir com algumas outras hipóteses para definir qual o critério do que realmente é uma camisa. Das muitas características que podemos considerar, há o fato de que é uma peça de vestuário, geralmente de algum tecido, que geralmente se veste ou se fecha ao redor do tronco, sem elementos que a assemelhem com outras peças como jaquetas, sem gorros e derivados, e por onde pode se passar a cabeça e os braços.

Aqui, já podemos criar muita discussão por definições, mas essas características são apropriadas, em termos gerais,  abrangendo até a “camisola” e possibilitando considerar até mesmo uma camisa reconhecida, mas menos lembrada, que é a camisa-de-força (ainda que esta tenha mangas apropriadas para que os braços, quando passados pelas mangas, sejam presos). E aí vem a pergunta pseudo-filosófica: como isso se encaixa com camisinhas?

“Camisinha” é o pior apelido possível para um preservativo. Afinal, veja só: ela não é uma peça de vestuário (ao menos, não na maneira habitual), ela não é vestida no tronco*, ela não é feita de tecido e, mais importante de tudo, ela não deixa passar a cabeça* e nem os braços! Já dizia a sabedoria popular que “pau não tem ombros” e, logicamente, eles também não têm braços. E nem na camisinha feminina isso se aplica! Talvez, assim, “capuzinho” fosse um termo muito mais adequado. Ou “saquinho”? Ou “gorrinho”?

Esse é o tipo de pergunta sem consequência com que eu me divirto diariamente. As pessoas que me conhecem, no geral, são muito pacientes.

*[Insira aqui uma piada de duplo sentido]

Conto Impromptu — MMXVII

(Conto originalmente compartilhado no Medium, escrito lá direto, em uma sentada.)

Um homem cansado senta-se em frente a uma escrivaninha antiga. Ele parece perdido em pensamentos, e as sombras da sala deixam ainda mais evidentes as marcas profundas em seu rosto, de quem já viu de tudo na vida.

Alguém bate na porta.

— Entre, — diz o homem, sem levantar a cabeça.

A porta se abre e entra um jovem forte, mas com aparência insegura, vestindo um fraque. Ele é claramente novo aqui.

— O senhor queria me ver?

O homem na poltrona não levanta a cabeça para encarar o rapaz. Sua voz é tão cansada quanto sua aparência:

— Venha cá, rapaz.

O jovem do fraque caminha até a mesa, tentando parecer seguro, mas deixando transparecer o nervosismo no tremor de seus dedos. Só quando ele se aproxima da mesa, o homem de rosto marcado levanta a cabeça para encará-lo.

Os dois ficam alguns instantes em silêncio. O jovem coloca as mãos atrás das costas, nervoso. Seu chefe, com uma expressão de desgosto que não parece direcionada exatamente ao rapaz, suspira.

Ele então abre uma das gavetas da velha mesa e tira uma série de objetos, que coloca à frente do rapaz: uma arma, um coldre, uma carteira de identidade, e uma grande pasta com papéis. Os olhos do rapaz se movem diretamente para os documentos, claramente a única parte que o surpreende dos objetos entregues.

A pasta em si era nova, mas as folhas que vazam pela superlotação são em sua maioria amareladas e manchadas de café e sabe-se lá mais o quê. Na capa da pasta estava impressa a palavra “RESOLUÇÕES”, mas alguém já a havia riscado com uma caneta hidrográfica preta de ponta grossa e rabiscado “DIRETRIZES” logo abaixo. O jovem aperta os olhos e depois encara o homem, procurando alguma explicação.

— Agente MMXVII, estas são suas diretrizes de missão. Você deverá estudá-las e cumprir cada uma das tarefas aqui listadas com eficiência máxima.

O velho falava de maneira quase automática, com o som profissional de quem já fez aquilo muitas vezes antes, mas com uma vaga ponta de desilusão de quem raramente viu aquela instrução surtir efeito.

— Sim, senhor! — Exclama o jovem, aprumando-se. — Quando devo começar?

— Imediatamente, MMXVII.

O jovem cuidadosamente tira o paletó e veste o coldre. Ele confere a arma e, encontrando-a em bom estado e carregada e a guarda. Depois veste o paletó, pega a identidade que o marcava como agente e a coloca em um bolso interno.

Terminado o processo, o jovem tem um sorrido largo no rosto, tanto o sorriso de quem tem um novo cargo, quanto o daquele que é confiante demais e carrega uma arma. Seu chefe não parece impressionado.

— MMXVII, olhe para mim.

A voz do velho desmonta o sorriso do jovem, que novamente esconde as mãos atrás das costas.

— Sim, senhor?

O homem da mesa vira a pasta ao contrário e a abre pelo final, revelando um conjunto de páginas grampeadas, claramente independentes do conteúdo principal dos documentos. Há a foto de um homem com um sorriso largo, quase maníaco, e uma série de informações diversas sobre ele e suas atividades.

— Este é um trabalho duro. Este é um trabalho que pode trazer o pior das pessoas para fora.

O jovem ainda não havia entendido bem a mensagem, mas algo naquilo o deixava nervoso.

— Junto com as suas diretrizes de missão, tomei a liberdade de deixar um dossiê de seu antecessor. Do agente MMXVI.

MMXVII engole em seco. Ele havia ouvido as histórias. Se havia algo que qualquer pessoa na agência queria evitar, era ser como MMXVI. A boca do chefe se estica em algo que fica entre um sorriso e uma careta de desgosto profundo.

— Ele não suportou a pressão. Acredito que foi logo no começo de suas tarefas, com a missão do “Homem do Espaço”. Ele não suportou a pressão, depois disso. Todas suas decisões em campo foram comprometidas.

Os dois se encaram em silêncio novamente, mas MMXVII começa a suar frio, tendo claramente perdido a convicção que o novo cargo havia lhe dado momentos antes. O chefe suspira novamente.

— Quero que estude tudo que MMXVI fez para que evite seus erros. Algumas das missões que você tem pela frente não serão fáceis, mas não deixe que elas quebrem seu espírito.

Ele fecha a pasta e a estende para MMXVII, que a segura com os dois braços como a um bebê.

— Sim… s-senhor. — responde, finalmente, com um leve tremor na voz.

— Todos torcemos pelo seu sucesso. Esperamos que aprenda com os erros de seu antecessor e nos dê orgulho. — O chefe finalmente consegue um sorriso, ou o mais perto disso que seu rosto consegue produzir.

O jovem respira fundo e consegue retribuir com um sorriso pequeno, mas genuíno.

— Sim, senhor!

— Dispensado, agente.

MMXVII acena com a cabeça e começa a se dirigir em direção à porta.

— Agente!

Ele se vira e encontra o chefe de pé, atrás da mesa, as duas mãos apoiadas sobre a madeira.

— Senhor?

— Seja lá o que acontecer, não deixe que atirem em um gorila dessa vez.

MMXVII franze a testa, se perguntando se isso era um novo código da agência, mas acena positivamente.

— Sim, senhor!

As Selfies Não São Minhas

(Imagem: https://en.oxforddictionaries.com/definition/selfie)

Talvez você não saiba, mas existe uma guerra acontecendo.

Tudo bem, talvez “guerra” seja uma palavra forte demais. Um “embate”, talvez? Um “confronto”? Estou pensando muito na palavra certa para definir este conflito porque são as próprias palavras que são a base dele.

É a oposição entre dois posicionamentos sobre como línguas devem funcionar: o Descritivismo e o Prescritivismo.

Basicamente, o “Descritivismo” é uma forma de descrever uma língua gramaticalmente que busca entender como as pessoas falantes de uma língua a utilizam e descrevê-la de acordo. O “Prescritivismo” é outra forma que prega o contrário — eles utilizam-se de normas para dizer o que uma língua deve ser e como as pessoas devem utilizá-la.

Essa oposição se manifesta de várias maneiras, desde meras discussões e estudos acadêmicos até dicionários e utilizações práticas para não-linguistas.

Eu amo línguas, amo escrever e amo comunicação em geral. Minha formação é de publicidade, mas tenho amor à linguística, ainda que meu conhecimento nessa linha de teorias não seja muito superior ao conhecimento de um turista sobre um país estranho onde passeia. Assim, eu pensei por bastante tempo sobre essa briga e há algum tempo escolhi o lado do Descritivismo, tanto porque penso que ele faz mais sentido, quando porque ele reflete meus valores morais básicos.

Ficou tudo meio sério subitamente, né? Mas é isso mesmo.

Vou forçar a barra — eu realmente acho que essa é uma briga que não para em palavras. Ela é uma briga de valores e da maneira como enxergamos mudanças. Aqui, a palavra “mudança” pode ser trocada por “progresso” e/ou “evolução”, dependendo do seu ponto de vista.

As regras gramaticais frequentemente seguem o que é estabelecido por um grupo e nem sempre representa a realidade da língua falada. Isso acontece também com tudo mais que muda.

O problema é que a mudança é estranha, assustadora e muitas vezes ela tropeça bastante e até mesmo volta atrás antes de se acertar. Mas não existe nada no mundo que não mude, por mais doloroso que seja o processo. Os prescritivistas podem falar o que quiser, mas eu acredito que essa é uma batalha perdida para eles. Ainda que algumas palavras sejam marcadas como gírias, ou tenham indicações de usos irregulares, elas já constam em dicionários. E nós, como sociedade, temos muito o que aprender com essa luta e com esse resultado.

A lição maior de entender este embate linguístico ficou quando eu descobri que a mudança às vezes é tão sorrateira que toda nossa convicção pode falhar no momento em que ela não agir da maneira que desejamos. Vamos entender:

Uma vez identificado como um descritivista, eu passei a ver as línguas e a utilização que as pessoas fazem delas como algo divertido e interessante. Passei a ver a facilidade como tratamos com condescendência qualquer variação da norma culta, enquanto aceitamos regionalismos que pouco diferem disso. Me maravilhei com brigas internacionais pelo retorno do reconhecimento de linguistas à adoção do pronome “they” (“eles”/”elas”) como um termo singular de gênero neutro. Tive um apreço especial pela velocidade da evolução da linguagem na Internet, passando adotar “Olar” como uma expressão de uso corrente (ainda que em contextos informais) e vendo outras com “mim acher” não com condescendência, mas com curiosidade.

Só que haviam dois exemplos que sempre me pegavam e tentavam me puxar à minha educação básica e a um aparente consenso social em relação ao prescritivismo: o primeiro era a expressão “literalmente” e o outro era a expressão “selfie”.

Desde que me conheço por gente, o termo “literalmente”, talvez pelo som agradável quando exclamado em meio a uma conversa ou por uma percepção de efeito hiperbólico, era usado de duas maneiras: tanto para significar “literalmente”, ou seja, “de modo literal”, quanto para significar seu completo oposto — “figurativamente”. Enquanto os prescritivistas continuavam corrigindo os falantes a cada uso que viam como errôneo, os descritivistas perceberam o óbvio — as pessoas agora consideravam que “literalmente” significava duas coisas diferentes, mesmo que fossem opostas.

Isso “literalmente” explodiu a cabeça de muitos prescritivistas. A minha cabeça também, de certo modo, ainda que eu me considerasse descritivista. Só que exatamente por isso eu comecei a pensar e… bem, eu tive que ceder. Eu percebi que, claro, não preciso concordar com tudo que uma linha ideológica pensa porque me alinho com ela, mas existem coisas básicas que, se eu não concordar, eu automaticamente me torno hipócrita em relação a outras.

Eu percebi que por mais que minhas mãos, boca, ouvidos, olhos e mente não estivessem acostumados a usar ou compreender “literalmente” dentro desse aspecto, eu não poderia falar com convicção sobre o respeito a qualquer outra novidade linguística se tivesse algum apego a essa forma que começava a se tornar naturalmente antiga.

O tempo passou e, lentamente, comecei a metabolizar essa ideia. E vou dizer que ela ainda não desce totalmente. As aspas em “literalmente” ali em cima não foram apenas para fazer uma piadinha sem graça, mas porque parte de mim ainda tem resistência a usar a palavra e ser percebido como “errado”.

Mas enfim, vamos à palavra “Selfie”. Essa expressão denomina um autorretrato fotográfico, geralmente com a utilização de uma câmera de um dispositivo móvel. Em 2013, mesmo ano da matéria acima sobre “literalmente”, ela foi considerada a Palavra do Ano pela Oxford Dictionaries. A partir disso e por muitos outros meios, ela se popularizou por todo o mundo e agora qualquer um, por mais desconectado que seja de tecnologia ou cultura jovem sabe o que é e provavelmente já tirou várias selfies.

Só que no meio desse processo, é claro que essa palavra, como qualquer outra, não continuou estática. A expressão “selfie” já está começando a mudar, sendo adotada por vários indivíduos como uma maneira de dizer “foto”. Pede-se que pessoas tirem selfies umas das outras, tira-se selfies de objetos sem a participação de quem fotografa e já vi empresas recomendando, por exemplo, que seus usuários “tirem selfies” de documentos para enviá-los.

Isso, como devem supor pelo exemplo anterior, soou estranho para mim. Ao perceber, me vi pronto para falar contra a utilização “errônea” da expressão da mesma maneira e com a mesma intensidade e paixão que um padre que prega contra a corrupção moral da sociedade. O problema, porém, era exatamente esse. Eu percebi que eu não queria ser um padre. Nem um coroinha e nem mesmo um fiel.

Eu percebi, então, — ou talvez eu tenha percebido novamente — que é muito mais fácil aceitarmos uma mudança que já passou, ainda que com uma resistência inegável, do que aceitarmos uma mudança que se encaminha. Mas eu percebi que nós devemos estar prontos para isso. Se há um imperativo moral aqui, é que temos que aceitar e respeitar a mudança. Se não concordamos, não precisamos seguir essa tendência, e tudo bem. Mas se batermos de frente, nós somos os responsáveis por gerar a resistência, e essa resistência tem pouca diferença com a daqueles que se colocam à frente do progresso.

Eu percebi, acima de tudo, que também é mais honesto e menos hipócrita de nossa parte que nós repliquemos essa ideia.

Falando assim, parece que falo de algum movimento revolucionário, do começou ou fim de uma grande resistência, da desistência de uma luta. Bem, na prática, é algo assim, mas não é nem de longe tão grave, já que nós sempre aceitamos isso. Duvida?

Basta, por exemplo, um estudo básico de francês para identificar que língua portuguesa não teria “garçom”, “metier”, “berço”, além de outras muito mais óbvias que já se integraram ao nosso vocabulário e que, um dia, já foram “erradas”. Sem falar da naturalidade que reconhecidamente usamos “download” e até adicionamos um significado a mais em “baixar” para adequar a nossa língua a essa prática.

A mudança da língua não é imoral. A maior parte das mudanças que as pessoas fazem não são imorais. Mas nós temos uma facilidade muito grande de atribuir moralidade a coisas cujo uso não necessariamente está ligado à moral. Não podemos deixar que o desejo do uso correto de uma língua se torne uma cruzada, especialmente porque não há um uso correto, do mesmo jeito que qualquer moralidade que possamos discutir em torno disso e de outras realidades é relativa e só existe em nossas cabeças.

Isso não quer dizer — e explico de maneira bem clara porque sei que nem todos nós interpretamos palavras da mesma maneira — que estou falando que podemos instantaneamente usar palavras e uma lógica de língua até agora inexistente e esperar que todos a sigam, do mesmo modo que não podemos esperar que algo que não seja aceito pelo que se entende de nosso consenso de moral seja aceito de imediato.

Não podemos tratar isso como uma guerra, mesmo que alguns tratem assim, especialmente porque não é o tipo de coisa que o uso correto de pronomes, o uso palavras difíceis ou o uso correto da crase irá evitar. Nós, como humanidade, nos comunicamos há milênios. O português é falado há séculos. Só que nem a nossa própria versão de português brasileiro é o mesmo em seus quinhentos e tantos anos de existência.

Eu não vou usar a palavra “selfie” fora do significado que me parece certo que ela tenha, mas se ela vir a substituir a palavra “fotografia” eventualmente, sem dúvida terei que usar “selfie” no significado que atualmente me parece errado para que eu possa me comunicar. Isso é o mínimo que tenho que fazer como uma pessoa que usa palavras e que as ama. Isso é o mínimo que tenho que fazer como uma pessoa que busca o convívio saudável e não vê a resistência à novidade em qualquer âmbito como uma virtude. Isso é entender que as coisas mudam, e que tudo bem.

Se as pessoas mudarem o significado da palavra o suficiente e “fotos” se tornarem “selfies”, eu não terei o que fazer. As selfies não são minhas, e continuarão se chamando de selfies, porque não fui eu que as tirei.

A primeira pessoa a falar “você” talvez tenha sido muito julgada pelos usuários de “vossa mercê” (ou de “voismicê”, ou outras variações). Hoje em dia, ninguém sabe dizer com certeza quem foi o original. O uso não virou um crime a ser registrado pela história. E eu e você usamos “você”.

Na próxima vez que alguém fizer algo de um jeito diferente — não só palavras, mas qualquer coisa, qualquer coisa mesmo — , pense na primeira pessoa que falou “você”. E pense que a sua resistência pode te parecer como um princípio moral inalienável, mas que dificilmente é.

Últimos dias para apoiar “Dito Pelo Não Dito”

Pessoal, estamos nos últimos dias para apoiar o meu projeto de literatura “Dito Pelo Não Dito” lá no Catarse. Eu poderia me alongar a respeito dele aqui, mas sugiro que todos confiram lá na página do projeto. É só clicar aqui e conhecer 🙂 Muito obrigado!